A COROA DO ÚLTIMO EXILADO. Não chames... Marcelo Caetano Monteiro
A COROA DO ÚLTIMO EXILADO.
Não chames desventura o cárcere que abracei;
foi nele que, sem trono, meu destino coroei.
Os risos pereceram nas praças do verão;
restou-me o cetro austero da eterna solidão.
Os sinos emudeceram nos claustros da memória;
somente a sombra antiga conhecia minha história.
As luas, uma a uma, beijaram meu perfil;
nenhuma devolveu-me o jardim de abril.
Houve um tempo em que os lírios perfumavam meu caminho;
hoje florescem cardos onde outrora havia ninho.
Cada pétala tombada tornou-se oração;
cada espinho gravou teu nome no coração.
Quem contempla o precipício escuta outra linguagem:
não pertence aos ouvidos, mas à última coragem.
Ali o medo dissolve a máscara da razão,
enquanto a alma desperta na suprema provação.
Vi palácios sucumbirem ao cansaço das eras;
vi impérios converterem-se em esquecidas quimeras.
Todavia, tua lembrança permaneceu de pé,
como chama invencível sustentada pela fé.
Minha princesa... havia ouro na curva do teu riso;
bastava tua presença para inventar o paraíso.
Agora, cada alvorada parece funeral;
cada crepúsculo encerra um adeus monumental.
Procurei teu reflexo na vidraça do destino;
encontrei somente o rosto do silêncio peregrino.
Interroguei os astros sobre tua direção;
responderam com o idioma da constelação.
As montanhas envelhecem, os oceanos vão secar;
todo mármore dissolve, todo bronze há de tombar.
Entretanto, o sentimento que me deste por herança
não conhece sepultura, nem renuncia à esperança.
Se o universo apagar a derradeira estrela,
guardarei tua imagem onde ninguém pode vê-la.
Nem o tempo, soberano, vencerá semelhante ardor;
há eternidades nascidas do impossível amor.
Quando enfim meus olhos cerrarem o horizonte derradeiro,
não haverá lamento, nem adeus derradeiro.
Apenas tua lembrança, serena como um altar,
esperando meu espírito além do último mar.
Então, se Deus permitir que as almas voltem a florir,
hei de reconhecer teu olhar antes mesmo de sorrir.
Porque quem ama através da ausência, da saudade e da aflição,
já não pertence ao mundo: pertence à eternidade do coração.
E, caso nunca voltes...
Não chores por meu destino.
Procura-me na chuva que repousa sobre os telhados antigos;
na folha que abandona o galho sem protestar;
na estrela solitária que insiste em cintilar quando todas as outras adormecem.
Ali estarei.
Não como homem.
Nem como lembrança.
Mas como a parte do teu silêncio que jamais deixou de te amar.
Marcelo Caetano Monteiro .
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