O SUAVE SENHOR. "AMAMOS ASSIM, POR... Marcelo Caetano Monteiro

O SUAVE SENHOR.

"AMAMOS ASSIM, POR NÓS MESMOS."
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.

"Mau servo que fui, pois fiz apenas o que o meu suave e manso Senhor me pediu."

Existe uma forma de amar que ainda negocia. Ama enquanto é amado; serve enquanto é reconhecido; perdoa enquanto não é profundamente ferido. É um amor legítimo em seus primeiros passos, mas ainda condicionado pelas expectativas do ego.

Jesus, porém, inaugurou outra medida.

Seu amor não aguardava reciprocidade. Não florescia porque o mundo era bom; florescia porque Ele era bom. Sua misericórdia não dependia da conversão imediata daqueles que o perseguiam. Seu coração permanecia fiel à Lei Divina mesmo quando os homens lhe ofereciam ingratidão, abandono e a cruz.

É por isso que o Evangelho apresenta a imagem inesquecível do pai que jamais entrega uma pedra ao filho faminto:

"Ou qual dentre vós é o homem que, se seu filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra?... Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem." (Mateus 7:9–11)

Que extraordinária revelação!

Jesus não está apenas ensinando sobre a bondade de Deus. Está convidando cada consciência a tornar-se semelhante ao Pai. O discípulo aprende que o bem não deve ser resposta ao comportamento alheio, mas expressão natural do próprio Espírito.

Amamos assim, por nós mesmos.

Não porque o outro mereça.

Não porque haverá recompensa.

Não porque seremos compreendidos.

Mas porque, ao amar, preservamos a paz da própria consciência.

Quem odeia permanece ligado ao objeto do seu ódio. Quem alimenta o ressentimento torna-se prisioneiro da ofensa que desejava esquecer. O perdão, portanto, não absolve apenas o ofensor; antes de tudo, liberta quem perdoa.

Sob a luz do Espiritismo, compreendemos que toda ação moral grava-se no Espírito. Cada gesto de benevolência fortalece nossas faculdades superiores. Cada renúncia ao orgulho enfraquece antigas imperfeições. O beneficiado imediato pode até ser o próximo; contudo, a transformação mais profunda acontece naquele que pratica o bem.

Por isso Jesus não mandou amar apenas os amigos.

Mandou amar os inimigos.

Esse ensinamento seria absurdo se dependesse da simpatia. Porém, torna-se perfeitamente lógico quando entendemos que o amor cristão não é sentimento de preferência, mas decisão consciente de jamais responder ao mal com o próprio mal.

O Cristo sabia que ninguém prejudica mais a si mesmo do que aquele que alimenta o ódio.

Quando estendemos a mão ao caído, não enriquecemos apenas sua caminhada. Iluminamos a nossa.

Quando consolamos alguém, nossa própria alma aprende a linguagem da esperança.

Quando perdoamos, quebramos correntes invisíveis que nos prendiam ao passado.

Quando servimos, diluímos lentamente o orgulho que, durante séculos, sustentou nossas quedas.

Assim, o amor deixa de ser favor concedido ao próximo para tornar-se necessidade espiritual daquele que ama.

Amamos assim, por nós mesmos.

Porque desejamos conservar limpa a consciência.

Porque não queremos carregar o peso da amargura.

Porque escolhemos permanecer fiéis ao Cristo, ainda que o mundo não compreenda.

Porque servir ao bem é servir à própria evolução.

Talvez seja esse o sentido mais profundo das palavras do Mestre quando afirmou:

"Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração."

Sua mansidão jamais foi fraqueza. Era o domínio completo de si mesmo. Sua humildade jamais significou submissão à injustiça. Era a perfeita consciência de viver inteiramente unido à vontade do Pai.

E nós? Ainda caminhamos.

Tropeçamos muitas vezes. Confundimos amor com dependência, perdão com esquecimento, caridade com reconhecimento.

Mesmo assim, seguimos.

Cada esforço sincero aproxima um pouco mais nossa alma daquele Modelo e Guia que jamais ofereceu pedras quando lhe pediam pão e que, mesmo recebendo espinhos dos homens, continuou distribuindo esperança.

Se algum dia pudermos dizer que amamos sem exigir recompensa, servimos sem esperar aplausos e perdoamos sem contabilizar ofensas, então teremos compreendido uma pequena parcela da grandeza do Evangelho.

Nesse dia, talvez também possamos repetir, com humilde gratidão:

"Fiz apenas o que o meu suave e manso Senhor me ensinou."

E descobriremos que, ao amar o próximo, jamais fizemos um favor a ele. Fizemos um bem, antes de tudo, à nossa própria alma.

Fontes

Bíblia Sagrada: Mateus 5:43–48; Mateus 7:9–11; Mateus 11:29; Lucas 6:27–36; Lucas 11:11–13; Lucas 17:10.

O Evangelho Segundo o Espiritismo, especialmente os capítulos XI (Amar o Próximo como a Si Mesmo) e XII (Amai os Vossos Inimigos).

O Livro dos Espíritos, questões sobre a lei de amor, justiça e caridade (629, 886 e correlatas).