Na oncologia chove? Temporais, chuva... Renata Silva de Carvalho -...
Na oncologia chove?
Temporais, chuva fina, garoa, sempre vi chuva na ala da Oncologia.
O dia mais chuvoso por incrível que pareça, não é o dia do diagnóstico.
A tempestade vem no dia que a gente ouve que o câncer voltou ou cresceu, junto a sensação de impotência, a dúvida sobre o tempo, o que fazer, foi tudo em vão, e um milhão de porquês?
É uma doença que coloca o paciente numa guerra desleal, onde ninguém queria estar.
Eu tinha um pavor enorme da palavra câncer. Lá em casa a gente dava apelidos para ela.
Tive que encarar o diagnóstico da minha mãe numa quarta-feira de manhã, num pronto socorro em meio a pandemia.
A incerteza, o medo, a sensação de perda tomaram conta de mim e tive que fingir que não tinha ouvido nada.
Para minha mãe era apenas um sintoma ruim de algo que ainda estava por investigar. Eu sabia do diagnóstico no primeiro dia e me calei para encarar os próximos passos.
Quando foi o diagnóstico do meu pai, não foi diferente, passei horas olhando para o resultado na tela do meu computador da empresa e pensando como partir o coração daquele que era o alicerce lá em casa.
Até nosso peludo Viny teve que encarar uma tempestade de cachorro, o câncer também maltrata nossos pets, a tal temida quimioterapia de cachorro deixou a gente sem chão.
A sala de oncologia não era tão novidade para mim, tivemos outros diagnósticos na família, mas dessa vez eram os mais imortais que estavam ali. Dona Lina e Seu Rubens não tinham esse direito, dizia meu coração, com eles não.
Mas sabe, não existe só chuva na oncologia não. Posso afirmar que são mais dias ensolarados do que chuvosos.
A oncologia tem uma espécie de superpoder. A droga mais eficaz que eles fornecem não está na lista da farmácia.
O Remédio é o amor. Esse é infalível. Faz parte da cura. Eles aplicam em pequenas doses e mesmo a gente que não é paciente, acaba sendo medicado junto.
Na Onco também tem um remedinho que muda a gente. É lá que a gente entende que perdemos um tempo danado com coisas tão banais. Aprendemos que a gente complica a vida demais.
Formada pelos seres mais cativantes que já vi, a equipe oncológica é uma terra encantada. A gente sorri querendo chorar, a gente chora as vezes também, mas incrivelmente a gente sai de lá melhor. Não é só da parte física não, melhor na alma, na essência mesmo.
Meu pai e minha mãe eram mimados por lá, a gratidão habita a Onco e uma legião de anjos também, uns atendem pelo nome de enfermeiros, outros de médicos, as tias da cozinha, da limpeza, da recepção e até os residentes são criaturinhas de luz.
A medicina é só um protocolo, mas o que a gente vive por lá é mesmo o amor ágape, no dicionário ágape significa amor incondicional, altruísta e transcendental, e é tudo isso e mais um pouco.
Eu vi lindos arco-íris nos “quimio-days” do Papi e da Mamy e até do Viny.
As Joyces, as Anas, as Larissas, as Victórias, os Pedros, os Frankleins, os Gabriéis, as Duans, as Biancas, as Carols são uns dos protagonistas que cessaram os temporais dentro da gente diversas vezes.
E o último dia de quimio? Esse é para lá de especial. E nem sempre é sobre cura, a maioria das vezes não é mesmo. O sino toca e o coração bate forte e o hospital vira uma festa.
É minha gente, assim é a oncologia, um lugarzinho mágico, onde a gente vira do avesso e escalamos montanhas. Lá nascemos denovo, a metamorfose é visceral.
E a chuva? Passa, de uma forma de outra ela passa.
