​A Tragédia da Pousada ​Por Celso... Celso roberto nadilo

​A Tragédia da Pousada
​Por Celso Roberto Nadilo
​No início dos anos 1990, a história trágica teve seu começo. Maria, proprietária de uma das primeiras pousadas da vila, vivia em Paranapiacaba com o marido, Alaor, e as duas filhas.
​O tempo ali era proveitoso. Cultivavam uma horta farta para que tudo à mesa fosse natural e fresco, fruto da terra boa. Dois cachorros fiéis tomavam conta do galinheiro, espantando onças, macacos e até algum lobisomem metido a besta que ousasse se aproximar.
​Alaor parecia um homem fiel, até o dia em que cruzou o caminho de uma jornalista vinda de São Paulo, recém-chegada de Paris. O glamour da capital francesa e a vida no exterior conferiam à visitante o status de uma mulher independente, sedutora e envolta no ar mistorioso das Mil e Uma Noites. Sua beleza era tão rara que até o gênio da lâmpada abandonaria Aladdin por ela, dominando os pensamentos de quem a olhasse. Suas frases eram pura sublimação; sua voz e seus movimentos pareciam invadir as mentes e deleitar os corpos numa hipnose impressionante.
​Alaor se encantou perdidamente enquanto a esposa, alheia a tudo, cuidava dos pés de cambuci e dos coqueiros no quintal. Mas a vila de Paranapiacaba nunca guarda segredos por muito tempo.
​Numa noite em que as brumas surgiram de repente, a fúria da traição tomou conta do ar. A pousada foi consumida pelo fogo. Uns dizem que o incêndio começou com um raio vindo dos céus. Outros juram que a briga de um casal de hóspedes deu início às chamas. Há quem diga, ainda, que a loucura tomou conta da mente da família.
​O destino de todos virou mistério: as crianças teriam sufocado com a fumaça, e a esposa, em desespero, se jogado na linha do trem. Outra versão conta que o casal de amantes fugiu para bem longe, deixando para trás apenas cinzas e mágoa.
​Hoje, o espírito de Maria vaga pela névoa em busca de vingança, enquanto as duas crianças ainda brincam nos balanços da praça do Teatro Lira — esperando, em silêncio, que a mãe volte para buscá-las.