A LATA DOS RATOS Teoria por Ruisdael... RUISDAEL MAIA

A LATA DOS RATOS
Teoria por Ruisdael Maia.


Após tudo o que vivemos dentro daquela casa, acredito que nós dois entramos em um estado de alerta crônico. Era como se nossos corpos tivessem saído daquele ambiente, mas nossos sistemas nervosos continuassem presos nele.


A neurociência explica que a exposição prolongada ao estresse mantém o organismo em constante estado de vigilância. O eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (HPA) permanece ativado, há aumento sustentado de cortisol e adrenalina, e a amígdala cerebral torna-se mais sensível às ameaças, enquanto áreas responsáveis pelo autocontrole e pela tomada de decisão, como o córtex pré-frontal, têm sua capacidade reduzida (McEwen, 2007; Sapolsky, 2004).


É como colocar um casal de ratos que sempre viveu em harmonia dentro de uma caixa e submetê-los a perturbações constantes. O ambiente deixa de ser seguro. Eles passam a dormir mal, comer mal e viver em hipervigilância. Com o tempo, deixam de reagir ao ambiente e começam a reagir um ao outro. A agressividade deixa de ser consequência da presença do perigo e passa a se tornar o novo padrão de funcionamento.


Mesmo quando a caixa para de ser chacoalhada, o organismo não retorna imediatamente ao equilíbrio. O cérebro continua interpretando o mundo como ameaçador. O estado de defesa permanece ativo, e os conflitos continuam acontecendo com a mesma intensidade, até que haja uma intervenção capaz de restaurar a sensação de segurança.


Foi exatamente essa impressão que tive sobre nós. O problema deixou de ser apenas aquilo que acontecia ao nosso redor. O próprio estado de sobrevivência passou a governar nossas atitudes. E, quando duas pessoas vivem por muito tempo nesse modo, elas deixam de lutar juntas contra o problema e começam, involuntariamente, a lutar uma contra a outra.


Referências científicas:


- McEwen, B. S. (2007). Physiology and Neurobiology of Stress and Adaptation: Central Role of the Brain. Physiological Reviews.
- Sapolsky, R. M. (2004). Why Zebras Don't Get Ulcers. Henry Holt and Company.
- LeDoux, J. (1996). The Emotional Brain. Simon & Schuster.