A CRUCIFICAÇÃO. No cimo triste da... Marcelo Caetano Monteiro
A CRUCIFICAÇÃO.
No cimo triste da montanha erguida, morre o Senhor da eterna compaixão. Leva nos olhos toda a luz da vida, trazendo o amor por única razão. A brisa chora entre as oliveiras, O céu se veste em pálida tristeza. Calam-se os montes, calam-se as ribeiras, Ante o mistério da divina vez. A cruz se eleva sobre o mundo inteiro, como um altar de excelsa redenção. Parece rude o lenho carpinteiro, mas dele nasce a flor da salvação. Maria, em pranto manso e silencioso, contempla o Filho, sem nunca esmorecer. Seu coração, tão puro e luminoso, aprende a dor sem sem dela maldizer. João permanece ao lado da Senhora, guardando a fé no escuro entardecer. Enquanto o céu parece ausentar-se, seu amor insiste em florescer. Os cravos ferem mãos que distribuíram o pão da bênção, da paz e do bem. Ferem os pés das longas andadoras que nunca recusaram ir além. A fronte santa, coroada de sangue, possui mais brilho que o próprio sol. Cada ferida, embora sangrenta, abre no mundo um límpido sol. Nenhuma queixa rompe o santo peito, nenhuma sombra vence o coração. Perdão apenas brota, satisfeito, qual doce fonte sobre a ingratidão. O bom ladrão, olhando o Crucificado, descobre o clarão da imortalidade. Um só olhar, humilde e resignado, transforma a cruz em santa ascensão. As pedras tremem. Racha-se o horizonte. O templo antigo perde o velho véu. Toda esperança nasce, viva, à fonte que une a Terra para sempre ao Céu. As mães apertam seus filhinhos ao peito, sem compreender tamanho padecer. Mas cada lágrima caída daquele madeiro ensina o mundo inteiro a renascer. As aves calam seu canto festivo, os lírios curvam sua beleza. Até o vento veste negro manto diante do Amor que vence todo o mal. Cristo não morre. Apenas se levanta além da noite, além da dor. A cruz, que ao homem parecia tanta, converte-se em estandarte do Amor. Ó peregrino que outrora choraste, fitando o monte em silenciosa fé, sabe que o Cristo ainda vive agora, amparando o cansado em sua fé. Quem leva a cruz sem cultivar vingança, encontra a paz nas sombras do caminho. Quem faz do amor constante a esperança, jamais caminhará de todo sozinho. Assim termina o drama do Calvário, mas principia a eterna redenção, porque o madeiro, humilde e solitário, transformou-se em trono da perfeição.
