SOB A MORTALHA DO SILÊNCIO. FRIO,... Marcelo Caetano Monteiro

SOB A MORTALHA DO SILÊNCIO. FRIO,
Irrompe a força que o sepulcro encerra,
E a seiva bruta, em ríspido arrepio,
Rasga a epiderme escura desta terra.
​O verme cego que no lodo habita
Assiste à queda da cinzenta lousa,
Enquanto a flora, em ânsia que palpita,
Na podridão do húmus se repousa.
​É a primavera, este espasmo orgânico,
Que veste a rama com a cor da vida,
Célula a célula, em motor mecânico,
Curando a estéril e invernal ferida.
​Do átomo escuro à pétala vermelha,
Tudo ressurge em espantoso ensaio,
E a mesma força que a matéria espelha
Brilha no germe sob o sol de maio.