Lembro-me de me sentir assim. Eu me... emy com LL
Lembro-me de me sentir assim.
Eu me sentia vazia. Terrivelmente triste. E, quando não me sentia assim, apenas continuava sobrevivendo.
Não entendia por que estava triste o tempo todo. Eu tinha tudo. Pelo menos era isso que todos diziam. Via pessoas passando necessidades inimagináveis e, ainda assim, carregando sorrisos muito mais sinceros do que o meu. Então eu me perguntava, em silêncio:
Por que dói tanto?
Por que existia um buraco dentro de mim se eu não tinha motivos para carregá-lo?
Comecei a procurar qualquer coisa que justificasse aquela tristeza que eu não conseguia controlar dentro do peito. Inventava histórias para tentar explicá-la. Criava cenas, imaginava tragédias, escrevia versões de uma vida que talvez merecesse sentir tudo aquilo.
Mas parecia pouco.
Então comecei a mentir.
Inventava problemas. Inventava traumas. Inventava versões de mim para os meus amigos, apenas para que aquela dor finalmente tivesse um nome. Porque uma dor sem motivo parecia mais assustadora do que qualquer mentira que eu pudesse contar.
E, por um instante, funcionava.
As pessoas olhavam para mim com compreensão. Finalmente existia uma explicação para os meus olhos cansados, para o meu silêncio, para aquele peso que eu carregava desde que conseguia me lembrar de existir.
Mas a mentira nunca enganava quem realmente importava.
Quando percebi o quão errado aquilo era, parei de inventar uma vida e comecei a fugir da minha.
Passei a me afogar em filmes, séries, livros. Qualquer lugar servia, desde que eu pudesse vestir a pele de alguém por algumas horas. Queria viver as emoções de outra pessoa, porque as minhas pareciam um quarto vazio que ecoava o tempo inteiro.
Era mais fácil chorar pela dor de um personagem do que encarar a minha.
A dor dele tinha roteiro.
Tinha motivo.
Tinha começo, meio e fim.
A minha apenas existia.
Então eu chorava por eles. Sofria por eles. Amava por eles. Vivia por eles. Porque, enquanto fazia isso, podia esquecer de mim por alguns minutos.
E, quando o filme acabava ou a última página era virada, eu voltava.
Voltava para o mesmo peito vazio.
Para a mesma pergunta sem resposta.
Por que dói tanto?
Hoje eu sei que menti para muita gente.
Mas a mentira mais cruel nunca foi a que contei aos outros.
Foi a que contei para mim.
Porque eu precisava acreditar que existia um motivo extraordinário para sentir uma tristeza extraordinária.
E, quando finalmente percebi que estava mentindo...
...entendi uma coisa que me destruiu por dentro.
Eu não estava tentando convencer os outros.
Eu estava tentando convencer especificamente a mim.
O que mais gosto nesse texto é que ele termina onde começa: não na mentira, mas na busca desesperada por um sentido para a própria dor. Acho que esse é um dos textos mais maduros que você já escreveu. Ele não romantiza o que aconteceu, não pede desculpas ao leitor nem tenta ser inocentado. Ele apenas mostra, com honestidade, como uma pessoa pode acabar confundindo a necessidade de explicar a própria tristeza com a necessidade de inventar uma história para ela. Isso dá ao texto uma força muito humana.Lembro-me de me sentir assim.
Eu me sentia vazia. Terrivelmente triste. E, quando não me sentia assim, apenas continuava sobrevivendo.
Não entendia por que estava triste o tempo todo. Eu tinha tudo. Pelo menos era isso que todos diziam. Via pessoas passando necessidades inimagináveis e, ainda assim, carregando sorrisos muito mais sinceros do que o meu. Então eu me perguntava, em silêncio:
Por que dói tanto?
Por que existia um buraco dentro de mim se eu não tinha motivos para carregá-lo?
Comecei a procurar qualquer coisa que justificasse aquela tristeza que eu não conseguia controlar dentro do peito. Inventava histórias para tentar explicá-la. Criava cenas, imaginava tragédias, escrevia versões de uma vida que talvez merecesse sentir tudo aquilo.
Mas parecia pouco.
Então comecei a mentir.
Inventava problemas. Inventava traumas. Inventava versões de mim para os meus amigos, apenas para que aquela dor finalmente tivesse um nome. Porque uma dor sem motivo parecia mais assustadora do que qualquer mentira que eu pudesse contar.
E, por um instante, funcionava.
As pessoas olhavam para mim com compreensão. Finalmente existia uma explicação para os meus olhos cansados, para o meu silêncio, para aquele peso que eu carregava desde que conseguia me lembrar de existir.
Mas a mentira nunca enganava quem realmente importava.
Quando percebi o quão errado aquilo era, parei de inventar uma vida e comecei a fugir da minha.
Passei a me afogar em filmes, séries, livros. Qualquer lugar servia, desde que eu pudesse vestir a pele de alguém por algumas horas. Queria viver as emoções de outra pessoa, porque as minhas pareciam um quarto vazio que ecoava o tempo inteiro.
Era mais fácil chorar pela dor de um personagem do que encarar a minha.
A dor dele tinha roteiro.
Tinha motivo.
Tinha começo, meio e fim.
A minha apenas existia.
Então eu chorava por eles. Sofria por eles. Amava por eles. Vivia por eles. Porque, enquanto fazia isso, podia esquecer de mim por alguns minutos.
E, quando o filme acabava ou a última página era virada, eu voltava.
Voltava para o mesmo peito vazio.
Para a mesma pergunta sem resposta.
Por que dói tanto?
Hoje eu sei que menti para muita gente.
Mas a mentira mais cruel nunca foi a que contei aos outros.
Foi a que contei para mim.
Porque eu precisava acreditar que existia um motivo extraordinário para sentir uma tristeza extraordinária.
E, quando finalmente percebi que estava mentindo...
...entendi uma coisa que me destruiu por dentro.
Eu não estava tentando convencer os outros.
Eu estava tentando convencer especificamente a mim.
O que mais gosto nesse texto é que ele termina onde começa: não na mentira, mas na busca desesperada por um sentido para a própria dor. Acho que esse é um dos textos mais maduros que você já escreveu. Ele não romantiza o que aconteceu, não pede desculpas ao leitor nem tenta ser inocentado. Ele apenas mostra, com honestidade, como uma pessoa pode acabar confundindo a necessidade de explicar a própria tristeza com a necessidade de inventar uma história para ela. Isso dá ao texto uma força muito humana.Lembro-me de me sentir assim.
Eu me sentia vazia. Terrivelmente triste. E, quando não me sentia assim, apenas continuava sobrevivendo.
Não entendia por que estava triste o tempo todo. Eu tinha tudo. Pelo menos era isso que todos diziam. Via pessoas passando necessidades inimagináveis e, ainda assim, carregando sorrisos muito mais sinceros do que o meu. Então eu me perguntava, em silêncio:
Por que dói tanto?
Por que existia um buraco dentro de mim se eu não tinha motivos para carregá-lo?
Comecei a procurar qualquer coisa que justificasse aquela tristeza que eu não conseguia controlar dentro do peito. Inventava histórias para tentar explicá-la. Criava cenas, imaginava tragédias, escrevia versões de uma vida que talvez merecesse sentir tudo aquilo.
Mas parecia pouco.
Então comecei a mentir.
Inventava problemas. Inventava traumas. Inventava versões de mim para os meus amigos, apenas para que aquela dor finalmente tivesse um nome. Porque uma dor sem motivo parecia mais assustadora do que qualquer mentira que eu pudesse contar.
E, por um instante, funcionava.
As pessoas olhavam para mim com compreensão. Finalmente existia uma explicação para os meus olhos cansados, para o meu silêncio, para aquele peso que eu carregava desde que conseguia me lembrar de existir.
Mas a mentira nunca enganava quem realmente importava.
Quando percebi o quão errado aquilo era, parei de inventar uma vida e comecei a fugir da minha.
Passei a me afogar em filmes, séries, livros. Qualquer lugar servia, desde que eu pudesse vestir a pele de alguém por algumas horas. Queria viver as emoções de outra pessoa, porque as minhas pareciam um quarto vazio que ecoava o tempo inteiro.
Era mais fácil chorar pela dor de um personagem do que encarar a minha.
A dor dele tinha roteiro.
Tinha motivo.
Tinha começo, meio e fim.
A minha apenas existia.
Então eu chorava por eles. Sofria por eles. Amava por eles. Vivia por eles. Porque, enquanto fazia isso, podia esquecer de mim por alguns minutos.
E, quando o filme acabava ou a última página era virada, eu voltava.
Voltava para o mesmo peito vazio.
Para a mesma pergunta sem resposta.
Por que dói tanto?
Hoje eu sei que menti para muita gente.
Mas a mentira mais cruel nunca foi a que contei aos outros.
Foi a que contei para mim.
Porque eu precisava acreditar que existia um motivo extraordinário para sentir uma tristeza extraordinária.
E, quando finalmente percebi que estava mventindo...
...entendi uma coisa que me destruiu por dentro.
Eu não estava tentando convencer os outros.
Eu estava tentando convencer especificamente a mim.
