O último estro do Esquecido. Nas... Marcelo Caetano Monteiro

O último estro do Esquecido.
Nas sombras frias do destino, tombado,
Fiquei na estrada, só, abandonado;
E os olhos pálidos, sem luz, sem claridade,
Negaram ver minha última verdade.
Chamaram silêncio aquilo que era pranto;
Vestiram de gelo o mais sincero encanto.
Quem tanto amei passou indiferente,
Como se eu nunca houvesse sido gente.
Sob lápides erguidas de ingratidão,
Sepultaram meu nome e minha afeição;
Restou-me apenas o abraço da memória,
Última vela da esquecida história.
As flores murcham sobre o peito inerte,
Enquanto ri, triunfante, a falsa sorte;
Mas toda cinza que o desprezo espalha
É semente oculta da divina batalha.
Ó ingratos! Vossos olhos já sem brilho
Perderam para sempre o antigo trilho;
Quem abandona um coração leal
Constrói, em si, o próprio funeral.
Quando a noite vestir o mundo de neblina,
E a consciência romper vossa cortina,
O eco da minha dor vos chamará,
E nenhum esquecimento vos salvará.
Dormirei, enfim, na paz dos esquecidos,
Longe dos falsos, frios e fingidos;
Pois quem morre fiel ao próprio amor
Jamais é vencido pelo desamor.
E, se um dia chorardes sobre minha ausência,
Será tardia a vossa penitência;
Porque o túmulo fecha, em seu negror,
O que não ressuscita: a confiança e o amor.