O REINO QUE HABITAMOS. PENSAMENTO,... Marcelo Caetano Monteiro

O REINO QUE HABITAMOS.

PENSAMENTO, CONSCIÊNCIA E PROGRESSO NO ESPIRITISMO SEM MUROS.

Autor: Marcelo Caetano Monteiro.

A história do pensamento humano é, em grande medida, a história da busca pela Verdade. Desde os antigos filósofos gregos até os dias atuais, homens e mulheres interrogam-se acerca da natureza da realidade, do destino da alma e do sentido da existência. O Espiritismo, codificado por Allan Kardec, insere-se nessa longa tradição filosófica não como um sistema dogmático acabado, mas como uma proposta de investigação permanente, racional e progressiva.

Talvez uma das maiores dificuldades encontradas no movimento espírita contemporâneo seja justamente compreender a extensão de nossa própria ignorância.

O mestre grego Sócrates, cuja influência atravessa toda a Codificação Espírita, legou à humanidade a célebre máxima:

"Conhece-te a ti mesmo."

Não por acaso, em "O Livro dos Espíritos", questão 919, os Espíritos Superiores reafirmam exatamente esse princípio socrático como o caminho mais seguro para o aperfeiçoamento moral. Kardec não apenas cita Sócrates, mas reconhece nele um dos grandes precursores do Cristianismo e do próprio Espiritismo, dedicando-lhe inteiro estudo na introdução de "O Evangelho Segundo o Espiritismo". Para o Codificador, Sócrates e Platão prepararam, séculos antes, o advento das ideias cristãs e espirituais. Essa aproximação demonstra que o Espiritismo nasceu dialogando com a Filosofia, jamais combatendo-a.

A humildade intelectual constitui, portanto, um dos fundamentos da atitude espírita.

A tradição socrática ensina:

"Só sei que nada sei."

Longe de representar ignorância estéril, essa afirmação revela consciência epistemológica. Quanto mais o Espírito avança, mais percebe a vastidão do desconhecido.

O próprio Kardec reconheceu as limitações humanas diante do infinito. Em "O Livro dos Espíritos", questão 17, os Benfeitores afirmam categoricamente que o homem conhece apenas pequena parcela das leis universais. Somos aprendizes da eternidade.

Nesse sentido, a reflexão atribuída a Platão de que "a parte que ignoramos é muito maior que tudo quanto sabemos" harmoniza-se profundamente com o pensamento espírita.

Vivemos cercados por limitações sensoriais.

Nossos olhos não percebem toda a faixa luminosa existente. Nossos ouvidos captam apenas reduzida parcela das vibrações sonoras. O cérebro humano interpreta modelos aproximativos da realidade e não a realidade absoluta.

A ciência contemporânea, especialmente a neurociência cognitiva, demonstra que a consciência humana constrói representações do mundo exterior a partir de dados incompletos. Percebemos sombras da realidade, lembrando inevitavelmente a Alegoria da Caverna descrita por Platão em "A República".

Se ainda conhecemos imperfeitamente o universo material, quanto mais as dimensões espirituais.

Por essa razão, posicionar-se apaixonadamente "a favor" ou "contra" determinadas descrições do mundo espiritual pode revelar precipitação intelectual.

KARDEC NÃO LEVANTOU MUROS. ESTENDEU PONTES.

O Espiritismo autêntico jamais foi concebido como sistema fechado.

Kardec escreveu em "A Gênese":

"Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará."

Mais ainda:

"O Espiritismo marcha com o progresso e jamais será ultrapassado."

Essa afirmação destrói qualquer tentativa de cristalização doutrinária.

Kardec não edificou muralhas doutrinárias. Edificou pontes entre ciência, filosofia, religião e experiência mediúnica.

O critério kardeciano nunca foi a aceitação cega, nem a rejeição sistemática.

Foi a razão.

Foi a observação.

Foi o Controle Universal do Ensino dos Espíritos.

O chamado CUEE constitui uma das mais extraordinárias contribuições metodológicas de Kardec à história do pensamento religioso. Nenhuma revelação isolada deveria ser aceita apenas pela autoridade do médium ou do Espírito comunicante. A universalidade, a concordância e a confirmação racional deveriam sempre prevalecer.

Por isso Kardec advertiu em "O Livro dos Médiuns":

"Mais vale repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade."

Entretanto, essa prudência jamais significou fechamento mental.

ANDRÉ LUIZ E KARDEC. NÃO MUROS, MAS CONTINUIDADE REFLEXIVA.

André Luiz não substitui Kardec.

Kardec também não elimina André Luiz.

São contribuições situadas em níveis distintos.

Kardec estabeleceu os princípios fundamentais da Doutrina Espírita.

André Luiz descreveu aplicações, desdobramentos e experiências do mundo espiritual à luz desses princípios.

As obras de André Luiz devem ser estudadas exatamente como Kardec recomendava estudar todas as comunicações mediúnicas.

Com respeito.

Com análise.

Com comparação.

Com prudência.

Com lógica.

Aceitá-las integralmente sem exame pode conduzir ao fanatismo.

Rejeitá-las sumariamente porque transcendem nossa experiência sensorial pode conduzir ao materialismo intelectual.

A posição genuinamente kardeciana permanece intermediária:

Nem credulidade cega.

Nem negação absoluta.

Estudo constante.

Aqui resplandece a contribuição monumental de José Herculano Pires.

Herculano compreendeu com rara profundidade que a Codificação representa um núcleo principiológico permanente, enquanto o conhecimento humano permanece dinâmico.

Hoje, mais do que ontem, Herculano mostra-se atual.

Num tempo marcado por polarizações, simplificações e disputas ideológicas dentro do próprio movimento espírita, Herculano recorda que a fidelidade a Kardec não consiste em repetir fórmulas, mas em preservar o método.

Sem fanatismo.

Sem personalismos.

Sem idolatrias.

Sem ortodoxias petrificadas.

Para Herculano, o verdadeiro espírita deve permanecer intelectualmente livre, moralmente responsável e permanentemente aberto ao progresso do conhecimento, desde que submetido ao critério da razão e das Leis Divinas.

O PENSAMENTO COMO ENERGIA CRIADORA.

Uma das mais profundas teses da Doutrina Espírita afirma que o pensamento é atributo essencial do Espírito.

Em "O Livro dos Espíritos", questão 89, encontramos:

"O pensamento é atributo do Espírito."

Já em "A Gênese", capítulo XIV, Kardec demonstra que o pensamento atua sobre os fluidos espirituais, modificando-os e organizando-os.

Pensar não é apenas raciocinar.

Pensar é criar.

Cada ideia emitida imprime qualidades ao ambiente fluídico.

Cada emoção gera consequências vibratórias.

Cada estado íntimo estabelece processos de sintonia.

A moderna psicologia cognitiva confirma parcialmente esse princípio ao demonstrar que nossas crenças moldam percepções, interpretações e comportamentos.

Vivemos, psicologicamente, dentro das narrativas que construímos.

Sob o prisma espírita, essa realidade amplia-se.

Cada Espírito habita, em grande medida, o próprio reino mental que edificou.

Jesus afirmou:

"O Reino de Deus está dentro de vós." "Lucas 17:21."

À luz espírita, essa passagem revela extraordinária profundidade.

O céu e o inferno começam no campo da consciência.

Não como punições arbitrárias.

Mas como estados da alma.

Quem cultiva incessantemente ódio, ressentimento, orgulho e egoísmo cria para si regiões íntimas de sofrimento.

Quem trabalha humildade, caridade, perdão e amor constrói progressivamente estados interiores de paz.

Cada criatura vive, em larga medida, no universo espiritual que ajudou a plasmar.

Essa não é mera metáfora.

É consequência lógica das leis de afinidade e sintonia ensinadas pela Doutrina Espírita.

Pensamentos semelhantes atraem companhias semelhantes.

Ideias semelhantes aproximam Espíritos semelhantes.

Toda consciência torna-se centro irradiador de forças.

Assim, somos simultaneamente herdeiros do passado e arquitetos do futuro.

A LÓGICA DA RESPONSABILIDADE ESPIRITUAL.

Se o pensamento cria.

Se a sintonia aproxima.

Se a consciência sobrevive à morte.

Então decorre logicamente que cada Espírito torna-se corresponsável pelo mundo interior que experimentará após a desencarnação.

Por isso a questão fundamental não é simplesmente perguntar:

"André Luiz descreveu exatamente o além?"

A pergunta mais profunda talvez seja:

"Que espécie de homem estou construindo em mim mesmo?"

Porque, independentemente dos detalhes descritivos do mundo espiritual, a lei moral permanece invariável.

Colheremos aquilo que semeamos.

Viveremos entre aquilo com que nos identificamos.

Habitaremos o reino que aprendemos a construir em nossa intimidade.

A grande proposta espírita nunca foi satisfazer curiosidades sobre o invisível.

Foi transformar moralmente o ser humano.

Eis a ponte erguida por Kardec.

Uma ponte entre conhecimento e amor.

Entre razão e fé.

Entre filosofia e experiência.

Entre Terra e eternidade.

Quem atravessa essa ponte descobre que a Verdade não é posse de ninguém.

É caminho infinito percorrido pelos Espíritos em direção a Deus.

Fontes:

Allan Kardec. "O Livro dos Espíritos". Questões 17, 89, 459, 621 e 919.

Allan Kardec. "O Livro dos Médiuns". Capítulos XXIII e XXVII.

Allan Kardec. "A Gênese". Capítulos I e XIV.

Allan Kardec. "O Evangelho Segundo o Espiritismo". Introdução. Capítulo XVII.

José Herculano Pires. "Introdução à Filosofia Espírita".

José Herculano Pires. "Curso Dinâmico de Espiritismo".

Léon Denis. "O Problema do Ser, do Destino e da Dor".

Joanna de Ângelis. "Vida Feliz".

Platão. "A República". Livro VII.

Bíblia Sagrada. Lucas 17:21. Mateus 6:33.

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