Sob as Estrelas Sabe quando você olha... R. Cunha

Sob as Estrelas

Sabe quando você olha para as estrelas
e, por um instante,
confessa a si mesmo um silêncio estranho?

Não senti nada.

Nenhum vestígio de sentimentalismo,
nenhuma chama de amor,
nenhum eco de paixão.
Nem medo,
nem solidão.

Apenas o vazio,
sereno e indiferente,
ocupando todos os espaços.

Como se eu estivesse suspenso
num limbo descartável,
entregando a vida à mercê de um tempo
que nem sei se possuo.

E, ainda assim,
tanto faz.

As nuvens,
com suas formas imperfeitas,
atravessam o céu
como cicatrizes que não desaparecem.

Elas me lembram
que as desconstruções do amor
também deixam ruínas.

Talvez seja por isso
que não sinto nada.

Ou talvez eu sinta demais.

Talvez o vazio não seja ausência,
mas defesa.

Porque, no fundo,
não é que eu não possa sentir.

É que, desta vez,
eu não quero.