Entre o Silêncio e a Luz Há retratos... Rô Montano
Entre o Silêncio e a Luz
Há retratos que não revelam um rosto,
mas desvendam uma alma.
Na quietude de um quarto envolto em sombras suaves,
alguém ergue a câmera, não para capturar o mundo,
mas para encontrar aquilo que o mundo não vê.
O instante parece comum:
uma manhã qualquer,
um tecido repousando sobre os ombros,
a luz atravessando a janela sem fazer alarde.
Mas a beleza verdadeira nunca chega fazendo ruído;
ela se acomoda devagar nos detalhes.
Há cansaços escondidos sob a delicadeza,
histórias guardadas entre os fios dos dias,
lembranças que aprenderam a permanecer em silêncio
para não interromper o curso do tempo.
E, ainda assim, existe uma força:
uma força que não grita,
não disputa espaço,
não precisa provar nada.
Ela habita os corações que continuam a acreditar,
mesmo depois das despedidas,
mesmo após os sonhos adiados,
mesmo quando a vida exige coragem
para recomeçar sem garantias.
A lente aponta para fora,
mas acaba revelando o interior.
Porque toda mulher que aprende a sobreviver às próprias tempestades
carrega no olhar uma espécie rara de luz:
aquela que não vem do céu nem do sol,
mas das cicatrizes transformadas em sabedoria.
Talvez seja isso que torna certos momentos eternos:
não a perfeição da imagem,
mas a verdade escondida nela,
a capacidade de permanecer inteira
num mundo que tantas vezes tenta fragmentá‑la.
E enquanto o tempo segue seu caminho inevitável,
ela permanece ali, entre o silêncio e a luz:
colecionando instantes,
costurando esperanças,
transformando ausências em poesia.
Porque algumas pessoas não atravessam a vida apenas vivendo,
elas atravessam‑na iluminando.
E, sem perceber, tornam‑se a mais bela fotografia
que o próprio destino foi capaz de revelar.
