O Segundo Café (parte 02) Há momentos... Alex Zanute
O Segundo Café (parte 02)
Há momentos que passam.
E há momentos que permanecem para sempre.
Naquela noite gelada, uma mãe e seu filho seguiram montanha acima, carregando mochilas nas costas e amor no coração. O destino era o Pico das Agulhas Negras. Mas eles ainda não sabiam que a verdadeira conquista daquela jornada não seria o topo.
Quando o relógio marcou nove da noite, pararam para descansar.
O frio, porém, tinha outros planos.
Invadiu a barraca, atravessou os casacos, congelou os dedos e roubou o sono. O vento uivava lá fora como se quisesse lembrar o quanto somos pequenos diante da imensidão da natureza.
Mas, naquela noite, havia algo maior que o frio.
Havia uma mãe.
E havia um filho.
Duas almas unidas por um amor tão antigo quanto a própria vida.
Às três da manhã, quando muitos estariam desistindo, eles se levantaram.
Cansados.
Congelados.
Mas juntos.
E quem caminha junto nunca enfrenta a escuridão sozinho.
Passo após passo, venceram a madrugada.
Até que chegaram ao topo.
O mundo parecia silencioso lá em cima.
Como se o céu tivesse parado por um instante apenas para contemplá-los.
E então começaram a descer.
Foi quando o milagre aconteceu.
O sol nasceu.
Devagar.
Pintando de dourado as pedras, as montanhas e os rostos marcados pelo frio da noite.
O calor voltou ao corpo.
Mas algo ainda mais bonito aquecia seus corações.
A certeza de terem vivido algo que jamais seria esquecido.
Pararam para tomar um café.
Uma cena simples.
Tão simples que muitos nem perceberiam sua grandeza.
Mas a vida costuma esconder seus momentos mais preciosos justamente nos detalhes.
A mãe segurou a caneca entre as mãos.
Sentiu o calor subir pelos dedos.
Tomou um gole.
Depois outro.
E resolveu tomar mais um café.
Talvez porque estivesse delicioso.
Talvez porque quisesse aquecer o corpo.
Ou talvez porque, no fundo da alma, desejasse prolongar aquele instante.
Porque ela sabia.
Sabia que um dia a vida seguiria seu curso.
Que os anos passariam.
Que o filho cresceria ainda mais.
Que novas montanhas surgiriam.
Mas também sabia que existem momentos que Deus nos entrega apenas uma vez.
E aquele era um deles.
Um amanhecer depois da noite mais fria.
Uma conquista compartilhada.
Um silêncio que dizia tudo.
Um café quente entre as mãos.
E o filho ao seu lado.
Quando a memória procurar os dias mais bonitos da vida, talvez ela não encontre primeiro o topo da montanha.
Talvez encontre aquele amanhecer.
Aquele segundo café.
Aquele olhar.
Porque algumas lembranças não ficam guardadas na mente.
Elas escolhem morar para sempre no coração.
