Quase nada é tão importante ou... Alessandro Teodoro

Quase nada é tão importante ou interessante para alguém que dorme quanto acordar naturalmente
e revigorado.
Acordar alguém, senão para socorrê-lo, salvar uma vida ou tratar da partida de um ente querido, é um profundo despropósito.
O sono talvez seja uma das poucas experiências nas quais o ser humano se entrega por inteiro.
Ao dormir, abandonamos vigilâncias, defesas e controles.
Confiamos o corpo ao tempo e permitimos que a mente reorganize silenciosamente aquilo que a correria do dia ou da noite espalhou.
Por isso, interromper esse processo sem extrema necessidade costuma ser muito mais do que um simples incômodo: é a invasão de um território sagrado.
Vivemos em uma época que glorifica a urgência.
Tudo parece exigir resposta imediata, atenção instantânea e disponibilidade permanente.
Mas a verdade é que pouquíssimas coisas são realmente urgentes.
Muitas das interrupções que nos arrancam do descanso carregam apenas a ansiedade de quem não suporta esperar alguns minutos, algumas horas ou o despertar seguinte.
Existe uma sabedoria bastante discreta em quem respeita o sono alheio.
É o reconhecimento de que cada pessoa trava batalhas invisíveis durante o dia ou a noite e encontra, nele, uma espécie de reparação.
Acordar naturalmente é um privilégio muito silencioso.
É permitir que o corpo conclua sua tarefa e que a alma — seja lá o que isso signifique para cada um — retorne ao mundo sem violência, revigorada.
Talvez por isso acordar alguém só faça sentido diante do que realmente importa: preservar uma vida, socorrer uma necessidade incontornável ou comunicar uma despedida que não pode esperar.
Fora dessas circunstâncias, quase tudo pode aguardar.
Porque há uma diferença enorme entre despertar alguém e arrancá-lo do descanso.
O primeiro é um reencontro gentil com a vida.
O segundo é apenas uma imposição das nossas urgências sobre o tempo alheio.
E, no fundo, poucas demonstrações de respeito são tão simples quanto deixar alguém terminar de dormir.
Sobretudo quando esse alguém padece da dificuldade de fazê-lo.
