O Comboio do Coração Há, dentro do... Rosangela Montano

O Comboio do Coração

Há, dentro do peito, um viajante antigo,
um maquinista de névoas e memórias,
que percorre trilhos invisíveis
entre o que sentimos
e o que ousamos dizer.

Chamam-no coração.
Mas ele não é apenas carne e pulsação:
é um comboio de corda,
movido pelas mãos secretas do sonho,
avançando entre estações de ausência
e plataformas de esperança.

Por vezes, canta.
Por vezes, range como ferrugem esquecida.
Ainda assim, segue.

O poeta observa, da janela da alma,
e traduz o movimento dos vagões
em palavras que parecem verdade,
embora sejam apenas o reflexo
da verdade vestida de imaginação.

Porque sentir é uma chama indomável,
mas escrever é transformá-la em estrela.
E toda estrela, ao nascer no papel,
perde um pouco do fogo original
para ganhar a eternidade da luz.

Assim, o verso parte,
como uma locomotiva atravessando a noite,
levando passageiros feitos de lembranças,
saudades sem destino
e amores que nunca desembarcam.

O poeta sabe.
Sabe que a dor escrita
não é a mesma dor sentida.
É uma irmã mais elegante,
que aprende a dançar com as sombras
e sorri diante do abismo.

Sabe também que a alegria,
ao vestir-se de poema,
deixa de pertencer a um único coração
e passa a habitar milhares deles.

Por isso, escreve.
Não para explicar o mistério,
mas para torná-lo ainda mais belo.

E o coração, esse velho comboio de corda,
continua a sua viagem interminável,
cruzando pontes de silêncio,
atravessando túneis de pensamento,
colecionando paisagens que ninguém vê.

Até que, um dia,
na derradeira estação do tempo,
os trilhos desapareçam no horizonte.

Então, permanecerão apenas os versos:
essas pequenas locomotivas da eternidade,
que seguem viajando sem fim
pelos territórios da alma humana,
enquanto o poeta, já ausente,
continua chegando.




Rô Montano