Carta Aberta A morte é algo que existe... Hercules Vinícius dos...
Carta Aberta
A morte é algo que existe desde a criação do Todo, do Cosmo e do Universo.
Para nós, pobres criaturas chamadas humanos, ela é uma das experiências mais difíceis de suportar. Perder alguém é perder uma parte de nós mesmos. E quando essa perda é a de uma mãe, até mesmo aqueles que pareciam fortes como rochas descobrem que a vida possui ferramentas capazes de abrir fendas naquilo que julgávamos inquebrável.
As rochas suportam tempestades, ventos e séculos. Mas a dor cria trincas silenciosas. E quando estamos sozinhos diante de nós mesmos, dentro do profundo abismo da alma, ouvimos o eco dessas rachaduras se abrindo. O ranger da alma se torna um grito. Um grito que nasce nas profundezas do ser. E então desabamos.
Hoje vivo um desses dias.
A tempestade, o caos, o Cosmo, a morte e a dor me oferecem uma nova visão do mundo. Existe um Arquiteto do Universo, e existe o próprio Universo, que escreve todos os dias a história de cada criatura. É Ele quem sopra o ar da vida sobre a Terra. É Ele quem condensa existências inteiras nesta grande esfera azul chamada planeta Terra. E quando chega o momento, conduz nossa alma e nosso coração para lugares de paz e conforto.
Hoje, minha mãe se torna um ser encantado.
Retorna àquilo que é mais antigo que nós. Retorna ao mistério que foi criado pelo Arquiteto do Universo e moldado pelo próprio Cosmo. A morte não apenas leva; ela transforma. Ela transforma em encantamento aquilo que um dia me trouxe ao mundo.
Aquela que me gerou em seu ventre.
Aquela que me amou.
Aquela que me protegeu.
Aquela que durante nove meses foi meu abrigo contra o frio, contra o calor e contra todas as tempestades que existiam do lado de fora.
Naquele tempo eu não escutava sua voz, mas sentia seu coração.
Hoje, o meu coração bate mais forte pela perda. Bate mais forte pela dor. Bate mais forte pela ausência de não poder ouvir novamente aquilo que me acompanhou desde antes do nascimento.
Mas talvez o amor seja maior que a morte.
Talvez os corações que verdadeiramente se amam nunca deixem de conversar.
Talvez, quando o silêncio da noite tocar minha alma, eu ainda encontre sua presença escondida entre as estrelas, entre o vento e entre os mistérios do Universo.
E enquanto eu viver, uma parte dela continuará vivendo comigo.
Porque mães não desaparecem.
