Aqueles que nunca escreveram com... Alessandro Teodoro

Aqueles que nunca escreveram com batom no espelho, que atirem a primeira pedra!
Porque há sentimentos que não cabem nas páginas de um diário, palavras que não encontram coragem na ponta da língua e verdades que, por algum motivo, precisam ser desenhadas no reflexo de quem somos.
Quem nunca escreveu um nome e depois apagou, como se apagar as letras fosse suficiente para desfazer a lembrança?
Quem nunca deixou uma frase no espelho, na esperança secreta de que alguém a lesse, mesmo sabendo que talvez o único destinatário fosse o próprio coração?
O batom, às vezes, não é maquiagem: é tinta de uma alma inquieta.
O espelho, por sua vez, não é apenas superfície refletora; é testemunha silenciosa das nossas contradições, dos nossos desejos, das nossas saudades e das versões de nós mesmos que tentamos esconder do mundo.
Há quem escreva com batom, há quem escreva com lágrimas, há quem prefira o silêncio.
Mas todos, de alguma maneira, já tentaram deixar registrado aquilo que a vida insistia em não compreender.
E talvez a grande ironia seja esta: o espelho devolve nossa imagem, mas muito raramente nos revela por inteiro.
Ele mostra o rosto, enquanto as palavras denunciam a alma.
Por isso, antes de atirar pedras, convém lembrar que todos temos alguma frase escrita em algum lugar da memória, alguma loucura que o tempo não apagou e alguma história que, se fosse exposta ao sol, faria até os mais ajuizados corarem.
Afinal, viver também é isso: borrar certezas, escrever sentimentos fora das linhas e descobrir que nem toda marca precisa ser permanente para ter sido verdadeira.
E que atire a primeira pedra quem nunca precisou de um espelho para conversar consigo mesmo!
