Ai de vós, que vos importais mais... Alessandro Teodoro

Ai de vós, que vos importais mais com a fachada da vossa casa do que com a Catedral do Espírito Santo.
Ai de vós, que empregais tanto zelo em ornamentar as paredes que os olhos alheios contemplam, mas tão pouca disposição em restaurar os aposentos secretos onde a vossa própria alma habita.
Que cuidais das aparências com a devoção de quem constrói um templo, mas negligenciais o espírito como se nele não residisse o sagrado.
De que vos vale uma casa impecavelmente adornada, se aquele que nela mora carrega o coração em ruínas?
De que serve polir as maçanetas, pintar as paredes, ornar as janelas e cultivar jardins admiráveis, se os corredores da consciência permanecem mergulhados na escuridão da indiferença, da arrogância, da intolerância e da ausência de amor?
Há uma estranha inversão de prioridades na existência humana: muitos se preocupam demasiadamente com aquilo que os outros podem ver e insuficientemente com aquilo que Deus pode contemplar.
Erguem fachadas para receber admiração, mas deixam desmoronar os alicerces da própria dignidade.
Aprendem a representar virtudes, mas se esquecem de cultivá-las.
Decoram discursos com palavras de fé, enquanto seus gestos desmentem aquilo que seus lábios professam.
E eis uma das mais dolorosas contradições da espiritualidade: transformar a religião em vitrine, quando ela deveria ser caminho; fazer da fé um ornamento social, quando ela deveria ser uma experiência de transformação interior.
Afinal, não é a aparência de santidade que santifica alguém, assim como não é a aparência de uma igreja que a torna casa de Deus.
O sagrado não se mede pela exuberância dos altares, pela imponência das construções, pela eloquência das orações ou pela quantidade de vezes que alguém pronuncia o nome do Criador.
O sagrado se revela, sobretudo, na qualidade do amor que conseguimos oferecer, na justiça que somos capazes de praticar, na misericórdia que não negamos e na humildade com que reconhecemos nossas próprias imperfeições.
Jesus, ao confrontar a hipocrisia religiosa de seu tempo, deixou uma advertência cuja profundidade atravessa os séculos:
“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!”
“Pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas estão interiormente cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia.” (Mateus 23:27)
Não seria essa, também, uma das grandes tragédias de nossa época?
A de confundirmos respeitabilidade com integridade, aparência com essência, reputação com caráter e manifestação religiosa com verdadeira espiritualidade?
A Catedral do Espírito Santo não precisa necessariamente de mármore, ouro, vitrais ou torres que desafiem o céu.
Sua arquitetura é outra.
Seus alicerces são a verdade; suas colunas, a humildade; seus vitrais, a consciência; seus sinos, a compaixão; seus altares, a capacidade de amar sem transformar o amor em moeda de troca.
E talvez a maior obra de restauração que um ser humano possa realizar não esteja apenas na reforma de sua residência, mas na reconstrução de si mesmo.
É preciso limpar os porões da alma, abrir as janelas da consciência, permitir que a luz da verdade alcance os cômodos que escondemos até de nós mesmos.
É preciso reconhecer as rachaduras provocadas pelo orgulho, as infiltrações da inveja, os incêndios da intolerância e os escombros deixados pelas palavras que feriram sem necessidade.
Porque Deus não necessita de nossas fachadas para reconhecer a nossa essência.
Somos nós que, tantas vezes, necessitamos delas para esconder aquilo que ainda não tivemos coragem de transformar.
E há uma beleza profundamente divina na possibilidade de recomeçar: nenhuma alma precisa permanecer eternamente condenada às próprias ruínas.
Enquanto houver consciência para reconhecer os erros, humildade para pedir perdão e disposição para amar melhor, haverá espaço para reconstrução.
Afinal, o Espírito não nos convida a parecer melhores diante do mundo, mas a nos tornarmos verdadeiramente melhores diante da vida.
Paulo nos recorda em (1 Coríntios 3:16):
"Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?"
Eis, portanto, a provocação que talvez devêssemos carregar como uma silenciosa oração:
De que adianta possuir uma casa digna da admiração dos homens, se o templo que Deus nos confiou permanece abandonado à própria sorte?
Que não sejamos arquitetos de fachadas e ao mesmo tempo de ruínas interiores.
Que não gastemos a existência inteira embelezando aquilo que termina com o tempo, enquanto esquecemos de cuidar daquilo que dá sentido à eternidade.
Porque, no derradeiro encontro com a Verdade, não serão as paredes de nossas casas que testemunharão a grandeza de nossa existência, mas a humanidade que conseguimos abrigar dentro de nós.
E talvez seja justamente aí que descobriremos que a mais bela Catedral jamais construída não é aquela que se ergue para alcançar o céu, mas aquela em que o céu encontra morada no coração humano.
