Um dia, de noite, a lua trocou de lugar... andresaut
Um dia, de noite, a lua trocou de lugar com o sol.
Curiosidade, talvez. Aventura, com certeza. Ou apenas o desejo antigo de descobrir como era a vida do outro lado do céu.
A lua estava cansada de iluminar segredos. Queria, ao menos por algumas horas, enxergar aquilo que os homens faziam quando acreditavam estar sendo vistos.
O sol, por sua vez, andava exausto de tanta claridade. Iluminar tudo é uma responsabilidade enorme. Quem mostra demais acaba sendo acusado até daquilo que não revelou.
Combinaram a troca sem avisar ninguém.
A lua apareceu pela manhã, branca e redonda, no centro de um céu azul. Os galos cantaram com alguma desconfiança. Um deles chegou a olhar o relógio, mas galos não entendem de ponteiros e continuou cantando por orgulho profissional.
As pessoas saíram de casa e estranharam aquela luz delicada. Era possível olhar para o céu sem fechar os olhos. Pela primeira vez, a manhã não gritava. Sussurrava.
Foi então que a lua compreendeu uma coisa importante.
O dia não mostra tudo.
O dia apenas ilumina.
Há uma grande diferença.
A claridade revela o rosto, mas não necessariamente o pensamento. Mostra a casa, mas não conta o que acontece dentro dela. Exibe o sorriso, mas não explica o esforço que alguém fez para colocá lo no rosto.
O que o dia esconde mostrando, a lua guarda escondendo.
Enquanto isso, o sol apareceu no meio da noite.
Foi um escândalo.
As estrelas se afastaram, incomodadas com aquele vizinho excessivamente luminoso. Os morcegos voltaram para casa. Os apaixonados perderam o clima. E um ladrão, sentindo se observado, decidiu devolver uma bicicleta que nem havia roubado ainda.
Mas o sol também aprendeu.
Descobriu que a escuridão não é ausência de luz. É presença de coisas que a luz não alcança.
Na noite moram os pensamentos que não tiveram coragem de sair durante o dia. Moram as saudades, os arrependimentos, as conversas imaginárias e as respostas perfeitas que sempre chegam horas depois da pergunta.
A noite esconde os corpos para revelar as almas.
O sol percebeu que sua luz, tão poderosa, não conseguia iluminar aquilo que uma lembrança acendia dentro de alguém.
E ficou com ciúme.
Talvez tenha sido naquela troca que o universo entendeu a diferença entre vida e morte.
A vida sempre foi associada ao sol, porque nasce, aquece, movimenta e faz crescer. A morte ficou com a lua, porque chega silenciosa, cobre as coisas de sombra e parece levar tudo para longe.
Mas talvez seja o contrário.
A lua nunca desaparece. Apenas muda de rosto.
O sol também não morre quando anoitece. Continua brilhando em outro lugar, para olhos que não são os nossos.
Talvez morrer seja apenas sair do nosso campo de visão.
Talvez viver seja continuar iluminando algum lugar, mesmo quando alguém aqui jura que a luz se apagou.
Vida e morte podem não ser inimigas. Talvez sejam duas janelas da mesma casa. De uma, vemos quem chega. Da outra, quem continua o caminho.
Isso parece loucura.
Mas existe uma loucura às avessas, aquela em que o absurdo explica melhor a vida do que a razão.
Loucura talvez seja acreditar que cada coisa deve permanecer eternamente no lugar em que a encontramos. Que o sol deve ser sempre forte. Que a lua deve ser sempre misteriosa. Que homens não choram. Que mulheres precisam sorrir. Que velhos não sonham. Que jovens não sentem medo. Que quem parte desaparece e quem fica continua inteiro.
A verdadeira loucura talvez seja chamar de normal tudo aquilo que nunca tivemos coragem de questionar.
No fim daquela noite, que também era dia, a lua e o sol voltaram aos seus lugares.
Ninguém percebeu.
Os homens estavam ocupados demais tentando provar que aquilo seria impossível.
O impossível, muito educado, aconteceu sem interromper ninguém.
Desde então, o sol carrega um pouco da noite dentro de si. É por isso que, às vezes, sua luz entristece no final da tarde.
E a lua guardou um pouco do sol. Talvez por isso consiga iluminar, mesmo cercada de escuridão.
Quanto à vida e à morte, continuam trocando olhares no céu.
Uma mostra escondendo.
A outra esconde mostrando.
E nós, cá embaixo, chamamos de loucura tudo aquilo que ainda não aprendemos a enxergar.
Talvez a sanidade seja apenas isso: olhar para o céu de cabeça para baixo e perceber que não foi o mundo que virou.
Fomos nós que, por um instante, deixamos de estar ao contrário.
(André Saut)
