Ontem vi uma flor linda no meio do mato.... andresaut

Ontem vi uma flor linda no meio do mato.

Tão linda que meu primeiro pensamento foi quase um gesto de carinho:

vou tirá-la daqui.

Imaginei-a em um jardim bonito, cercada de cuidados, com terra boa, água todos os dias, protegida do vento forte e dos passos distraídos.

Porque nós somos assim.

Quando encontramos beleza em um lugar que julgamos feio, logo pensamos que ela está no lugar errado, que não é valorizada e que merecia um cenário melhor.

Mas continuei olhando para aquela flor.

E talvez ela não estivesse perdida.

Talvez perdido estivesse o meu pensamento.

Quem disse que uma flor precisa estar em um jardim para cumprir sua missão?

Deus não erra tanto assim os endereços.

Talvez ela estivesse exatamente onde deveria estar: entre folhas tortas, capim alto, terra irregular e outras plantas que ninguém levaria para um vaso.

Ali, tornava aquele pedaço do mundo mais bonito e fazia alguém parar.

Eu parei.

Se estivesse em um jardim cheio de flores, talvez fosse apenas mais uma. Sozinha no mato, era um acontecimento.

Foi então que pensei em como fazemos algo parecido com as pessoas.

Encontramos alguém bonito por dentro e queremos mudar seu lugar, seus caminhos e sua maneira de viver. Pensamos:

aqui você não é valorizado.

Aqui ninguém percebe quem você é.

Venha para o meu jardim.

E chamamos isso de amor.

Talvez, algumas vezes, seja.

Mas amar também pode significar reconhecer que aquela pessoa tem raízes que não conhecemos, uma história naquele chão e razões para estar ali.

Talvez não seja preciso arrancar a flor para colocá-la onde achamos que ficará mais bonita.

Talvez baste sentar perto dela, admirá-la e cuidar sem possuir; proteger sem prender.

E, se desejarmos um jardim, podemos colher uma semente, plantar, regar e esperar. Construir o nosso próprio espaço, sem roubar o que floresce no jardim de outra pessoa.

Porque algumas coisas bonitas aparecem em nossa vida não para se tornarem nossas, mas para nos lembrar de que a beleza existe.

Aquela flor continuou no mato.

Não a levei comigo, mas, de algum modo, ela veio.

Passei o resto do dia pensando nela e percebi que a verdadeira delicadeza nem sempre está em levar uma flor para casa.

Às vezes, está em deixá-la florescer onde Deus a plantou e voltar para casa com vontade de plantar sementes.