Se meu lápis falasse… Se meu lápis... andresaut
Se meu lápis falasse…
Se meu lápis falasse, acho que começaria me desmentindo.
Diria que muitas vezes eu não escrevi porque sabia o que queria dizer. Escrevi justamente porque não sabia.
Peguei o lápis para entender a saudade, o amor, o tempo, a tristeza, as pessoas que chegaram, as que partiram e algumas que continuam dentro da gente mesmo quando já não estão ao alcance das mãos.
Talvez ele dissesse que me viu procurar respostas onde ninguém costuma procurar.
Numa flor crescendo no mato.
Num passarinho que precisava voar.
Num jardineiro que aprendeu que amar não é prender a beleza perto de si, mas ajudá-la a florescer.
Num vidro transparente que parecia mostrar tudo e, justamente por isso, escondia aquilo que eu não queria enxergar.
Numa lua que resolveu trocar de lugar com o sol apenas para descobrir o que a noite sabia e o dia nunca contou.
Meu lápis sabe dessas coisas.
Sabe que já escrevi sobre tristeza como quem fala de uma flor fechada. Ela não morreu. Talvez só esteja protegendo suas pétalas enquanto espera outra estação.
Sabe também que desconfio dos sorrisos.
Nem todo sorriso conta a verdade.
Às vezes o rosto sério revela muito mais.
Mas também aprendi que sorrir não é desrespeitar a dor. Há dias em que o sorriso é justamente a maneira que encontramos de carregá-la.
Meu lápis me viu falar do tempo tantas vezes que talvez ele próprio já esteja ficando velho.
Mas não reclamo.
Continuo acreditando que, para quem ama a vida, o tempo não passa.
Passeia.
Passeia pelas lembranças, pelas casas, pelas pessoas, pelos cafés tomados devagar, pelas conversas que ficaram pela metade e até pelas palavras que não tivemos coragem de dizer na hora certa.
Algumas eu disse depois.
Escrevendo.
Talvez por isso eu escreva tanto sobre memória.
Tenho medo de que as coisas bonitas desapareçam apenas porque ninguém resolveu contá-las.
Um Jeep antigo não é somente um carro.
É alguém que sentou naquele banco.
Uma estrada percorrida.
Uma mão no volante.
Uma fotografia que talvez nem exista.
Uma história atravessando gerações.
Do mesmo jeito, uma flor não é somente uma flor.
Um passarinho nunca é apenas um passarinho.
Uma janela não é somente vidro.
E uma pessoa que amamos jamais é apenas uma pessoa.
Ela começa a morar nas pequenas coisas.
Em uma palavra.
Em uma música.
Num bolo de laranja.
Num café quentinho.
Num bom-dia.
Numa saudade.
Até numa letra do alfabeto.
Meu lápis sabe muito sobre amor.
Talvez mais do que eu.
Porque esteve comigo quando tentei explicar aquilo que não tem explicação.
Descobriu comigo que amar não é encontrar alguém para completar nossa vida.
É encontrar alguém com quem queremos dividir aquilo que já somos.
Até nossas partes tortas.
Principalmente elas.
Ele sabe que Simone apareceu muitas vezes nas minhas palavras.
Às vezes pelo nome.
Às vezes escondida numa flor, numa lembrança, numa personagem, numa manhã ou simplesmente naquele jeito estranho que o coração tem de escrever sobre alguém mesmo quando estamos tentando escrever sobre outra coisa.
Meu lápis também conhece a criança que fui.
Essa talvez seja a personagem que mais aparece nos meus textos sem assinar presença.
Está nos bichos que falam.
Nos passarinhos.
Nas abelhas.
Nas capivaras.
Nos gatos.
Nos cachorros.
Nas luas que mudam de lugar.
Nos relógios que gaguejam.
Nas coisas impossíveis que, quando colocadas no papel, passam a parecer perfeitamente razoáveis.
Demorei para perceber que crescer não era abandonar aquela criança.
Era finalmente conseguir segurar sua mão.
Talvez seja por isso que continuo inventando histórias.
Inventar não é fugir da realidade.
Às vezes é a maneira mais bonita de conseguir enxergá-la.
Meu lápis também sabe que gosto de plantar.
Nem sempre árvores.
Planto ideias.
Histórias.
Perguntas.
Afetos.
Algumas sementes nunca germinam.
Outras aparecem muito tempo depois, quando eu já havia esquecido onde as tinha colocado.
Aprendi com meus próprios personagens que não podemos arrancar toda flor bonita que encontramos e levá-la para o nosso jardim.
Algumas precisam permanecer exatamente onde nasceram.
Talvez nossa missão seja apenas parar, olhar e agradecer por elas terem tornado aquele pedaço do caminho mais bonito.
Depois seguimos.
Levando conosco uma semente.
E talvez seja isso que tenho feito todos esses anos.
Recolhendo sementes.
Uma aqui.
Outra ali.
Uma lembrança.
Uma pessoa.
Uma perda.
Uma alegria.
Um absurdo.
Uma gargalhada.
Uma saudade.
Depois sento diante de um papel e tento plantar tudo novamente.
Nem sempre nasce exatamente como aconteceu.
Ainda bem.
Porque literatura não é fotografia.
É memória depois que passou pelo coração.
Se meu lápis falasse, provavelmente contaria também dos papéis amassados.
Das frases riscadas.
Dos começos abandonados.
Das histórias que achei ruins.
Das ideias que chegaram de madrugada.
Talvez revelasse que muitas das palavras de que mais gosto nasceram quando eu não estava tentando escrever bonito.
Estava apenas tentando ser verdadeiro.
E acho que, no fim, foi isso que procurei em tudo que escrevi.
Não respostas.
Verdade.
Aquela verdade pequena que cabe numa flor.
Num café.
Num passarinho.
Num Jeep antigo.
Numa mulher de olhos azuis.
Na mão de uma criança.
Ou numa folha de papel esperando alguma coisa acontecer.
Hoje olho para o lápis sobre a mesa e penso que ele já sabe o que vou escrever antes de mim.
Talvez por isso fique ali quietinho.
Esperando.
Porque lápis não precisa falar.
Quem fala são as marcas que ele deixa.
E, pensando bem, talvez toda a minha escrita seja apenas isso:
um monte de pequenas marcas tentando provar que eu estive aqui.
Que amei.
Que senti.
Que errei.
Que ri.
Que tive saudade.
Que plantei algumas flores.
Que encontrei pessoas.
Que perdi outras.
Que continuei.
E que, apesar de tudo, achei a vida bonita.
Se meu lápis falasse, acho que no final ele diria apenas:
Ainda tem papel.
E eu entenderia.
Ainda tem vida.
