Às vezes, desconfio que faço tantas... Ana Paula Mendes
Às vezes, desconfio que faço tantas coisas não porque me falte tempo, mas porque me sobra aquilo que não sei sentir. Escrevo, escuto, cuido, amo, trabalho, invento futuros. Como se o movimento fosse capaz de impedir que certas ausências me alcançassem. Mas há perdas que não ficam no passado; elas envelhecem conosco, aprendem nossos horários, sentam-se à mesa e habitam até os dias felizes.
E existe algo profundamente inquietante em perceber que podemos ser abrigo para tanta gente e, ainda assim, não saber onde repousar dentro de nós mesmas.
Talvez meu maior medo nunca tenha sido morrer. Talvez seja chegar ao fim de uma vida inteira tentando dar conta de tudo e descobrir que, enquanto eu estava tão ocupada em existir para o mundo, deixei de me encontrar em mim.
E que ninguém percebeu. Nem eu.
