O dia não espera, impera Sonhei tanta... Elder Magalhães

O dia não espera, impera

Sonhei tanta coisa.
Hoje, tanta coisa
não é o que sonhei.

Ainda entre o sono e a vigília,
ouço os passarinhos
ensaiando a manhã,
os primeiros ônibus levando
quem precisa chegar
antes de a cidade abrir as portas.

Carros vão ou voltam.
Uma buzina me chama a atenção.
Outra.
Duas, três seguidas.
A pressa já faz barulho na rua.

Uma sirene pede passagem.
Um avião risca o céu.
No corredor, uma porta bate.
A chaleira começa a chiar.

Tudo se mistura num só ruído.
A cidade retoma o movimento,
e eu ainda tento lembrar
onde o sonho parou.

Coço os olhos,
preparo o café.
O celular acende sobre a mesa:
uma mensagem, outra,
a conta que vence,
a resposta que ficou pra hoje.

A rotina já chama.
Já clama.
Pede um ânimo
que ainda procuro
em mais um dia de semana.

Entre um gole e outro,
o café esfria.
Há uma conversa por terminar,
um boleto aberto na tela
e roupa secando atrás da porta.

Calço os sapatos.
Do outro lado da janela,
um ônibus freia no ponto.

É preciso seguir.

Mas esse seguir em frente,
que me move e me comove,
nem sempre me leva
pra onde sonhei.