Só está faltando isso aqui, para eu... Alessandro Teodoro

Só está faltando isso aqui, para eu entrar na fila dos mal-educados e ir tomar café na sua casa, sem nem te avisar.
Porque, convenhamos, estamos vivendo tempos muito curiosos: há pessoas que transformaram a formalidade em distância, a etiqueta em barreira e a educação em um conjunto às vezes tão rígido de protocolos que até a espontaneidade precisa pedir licença para existir.
A sociologia das relações humanas nos ensina que os vínculos não se sustentam apenas por convenções, mas pela liberdade de pertencimento, pela confiança e pela intimidade que se constrói no cotidiano.
Afinal, uma Amizade Verdadeira não deveria exigir agendamento prévio para demonstrar afeto, nem transformar uma visita inesperada em uma transgressão social.
Filosoficamente, talvez a questão nem seja sobre chegar sem avisar, mas sobre o quanto nos tornamos estranhos uns para os outros em uma sociedade que supervaloriza a conveniência e subestima a presença.
Estamos tão acostumados a administrar horários, espaços e aparências que, por vezes, esquecemos que a vida também acontece naquilo que não foi combinado.
Há uma beleza quase revolucionária em poder chegar, sentar, conversar, rir de bobagens e compartilhar um café sem que seja necessário apresentar justificativas para a própria presença.
Não se trata de desrespeitar limites, mas de alcançar aquele estágio de afeto em que a hospitalidade deixa de ser uma obrigação protocolar e passa a ser uma expressão espontânea de consideração.
Porque casa não é apenas um endereço, é também um território de acolhimento.
E café, convenhamos, nunca foi somente uma bebida: é pretexto para encontros, cenário de confidências, testemunha de risadas e, muitas vezes, o pequeno ritual pelo qual duas pessoas dizem, sem precisar pronunciar, que ainda vale a pena estar próximas.
No fundo, não quero entrar para a fila dos mal-educados.
Quero apenas preservar o privilégio de conviver em um mundo no qual Algumas Amizades dispensem tanta cerimônia e não precisem transformar carinho em compromisso de agenda.
E, se um dia eu aparecer sem avisar, não será por falta de educação, mas talvez pelo excesso de consideração por aquilo que a vida tem de mais simples e precioso: a possibilidade de estar presente.
Afinal, existem cafés que matam a vontade de tomar café, mas existem encontros que matam a saudade de ser gente.
E esses, definitivamente, não deveriam depender de tanta burocracia afetiva.
