Cada bipe daquele monitor não contava... Valdir Enéas Mororó Junior

Cada bipe daquele monitor não contava apenas os meus batimentos; contava as novas chances que o universo me dava de reescrever a minha história. Durante quase um mês, o mundo lá fora continuou girando no seu ritmo frenético, enquanto o meu tempo foi forçado a desacelerar até o limite. Naquele silêncio quebrado apenas pelo som frio dos aparelhos, eu olhei para trás. Olhei para todas as vezes em que reclamei da rotina, do trânsito, dos pequenos problemas e das expectativas que eu mesmo criava. Percebi, da forma mais dura possível, o quanto a gente desperdiça energia com o que não importa, esquecendo de agradecer pelo que há de mais sagrado: a própria existência.
A UTI não foi apenas um lugar de cura para o meu corpo; foi o solo sagrado onde a minha alma foi reconstruída. Ali, despido de qualquer vaidade ou pressa, entendi que a vida não é o que planejamos para o futuro, mas sim o ar que entra e sai do peito no exato segundo de agora. Cada dia vencido naquele quarto era uma batalha silenciosa, um pacto de fé entre a minha vontade de ficar e a generosidade do universo em me permitir continuar.
Por isso, saí daquele quarto deixando para trás a minha versão que apenas sobrevivia. Levei comigo alguém que agora sabe exatamente o valor de estar vivo.
Eu não apenas recebi alta; eu recebi um passaporte para uma nova vida. Não volto para o mundo para ser a mesma pessoa de antes. Volto com os olhos limpos, com o coração blindado de gratidão e com uma pressa bonita de ser feliz, de abraçar quem amo e de não perder mais nenhum segundo com reclamações vazias. Se a vida me deu uma segunda chance, eu farei com que cada novo batimento seja um hino de vitória. Eu venci, eu mudei, eu renasci!