Bom mesmo é quando a Sorte vem e nos... Alessandro Teodoro

Bom mesmo é quando a Sorte vem e nos abraça tão apertado que até os nossos pecados se quebram.
Há momentos em que a vida, em sua misteriosa arquitetura, parece conspirar a nosso favor.
O improvável acontece, as portas se entreabrem, os caminhos se iluminam e aquilo que julgávamos perdido encontra uma maneira surpreendente de retornar.
Às vezes chamamos isso de Sorte, acaso, destino ou coincidência.
Talvez porque a linguagem humana, limitada diante dos mistérios da existência, precise dar algum nome àquilo que o coração não consegue explicar.
Mas há uma pergunta que merece ser feita: e se aquilo que chamamos de Sorte for, em determinadas circunstâncias, apenas a maneira discreta pela qual a graça de Deus se manifesta em nossa história?
A teologia nos ensina que a graça não é um prêmio destinado aos impecáveis, tampouco uma recompensa concedida aos que nunca tropeçaram.
Ao contrário, ela encontra especial significado justamente na fragilidade humana.
Em Romanos 5:20, o apóstolo Paulo afirma que, onde abundou o pecado, superabundou a graça.
Existe nessa afirmação uma das mais belas contradições do cristianismo: Deus não precisa encontrar em nós uma história perfeita para escrever um novo capítulo.
Talvez seja por isso que alguns abraços da vida tenham tanta força.
Não porque apaguem magicamente nossas responsabilidades, mas porque nos devolvem a esperança de que nossos erros não precisam ser a última palavra sobre quem somos.
E aqui reside uma distinção filosoficamente importantíssima: o perdão não é a negação do erro, assim como a Misericórdia não é a absolvição da consciência.
Ser alcançado pela graça não significa tornar-se indiferente ao pecado, mas adquirir lucidez suficiente para não permanecer prisioneiro dele.
O verdadeiro arrependimento não é uma moradia permanente na culpa; é uma travessia em direção à transformação.
Santo Agostinho, ao refletir sobre a inquietude humana, compreendeu que o coração não encontra repouso definitivo nas coisas passageiras.
Talvez porque estejamos sempre procurando, nos acontecimentos exteriores, uma paz que só pode amadurecer no interior.
A Sorte pode nos oferecer circunstâncias favoráveis, mas somente a sabedoria nos ensina a reconhecer o valor delas.
Afinal, de que adianta receber todas as bênçãos do céu e continuar incapaz de agradecer e mudar de vida?
De que serve escapar de tantas tempestades se permanecemos carregando tempestades dentro de nós?
Há pessoas que recebem muito e continuam vazias; outras, mesmo depois de perder quase tudo, descobrem uma riqueza interior que nenhuma adversidade consegue confiscar.
Jesus, em Lucas 15:11-32, nos conta a parábola do filho pródigo.
Um filho que desperdiça a herança, se perde nas próprias escolhas e, depois de conhecer a escassez, decide regressar.
O extraordinário não está apenas em sua volta, mas na atitude do pai, que corre ao seu encontro, abraça-o e celebra seu retorno.
O pai não transforma o passado em inexistente, mas se recusa a permitir que o passado seja maior do que a possibilidade de recomeçar.
Eis uma das mais profundas imagens da Misericórdia divina: um Abraço que não exige que a ferida tenha desaparecido para oferecer acolhimento.
Talvez seja isso que desejamos quando dizemos que a Sorte nos abraçou tão apertado que até os nossos pecados se quebraram.
Não queremos, necessariamente, escapar das consequências de nossas escolhas; queremos encontrar algo tão profundamente restaurador que nos faça desejar não repetir os mesmos erros.
Queremos que a vida nos surpreenda com uma oportunidade tão bonita que a velha versão de nós mesmos já não encontre razões para continuar existindo.
Entretanto, existe uma sabedoria ainda maior: não esperar que a sorte nos abrace para aprendermos a ser melhores.
A Maturidade Espiritual começa quando compreendemos que a bondade não deve depender da abundância, que a gratidão não deve aguardar milagres e que a fé não pode ser apenas um recurso para os dias em que tudo dá certo.
Em Mateus 5:45, Jesus ensina que Deus faz nascer o sol sobre maus e bons e faz chover sobre justos e injustos.
A passagem nos recorda que a existência não obedece à matemática simplista de que os bons sempre vencem e os maus sempre perdem.
A vida é mais complexa, a justiça divina transcende nossas percepções e nem toda adversidade representa castigo, assim como nem toda prosperidade significa aprovação.
Por isso, talvez devêssemos aprender a chamar de bênção não apenas aquilo que chega, mas também aquilo que nos transforma.
Há perdas que nos ensinam desapego, esperas que nos ensinam paciência, quedas que nos ensinam humildade e encontros que nos devolvem a fé na humanidade.
Nem tudo o que nos acontece é bom, mas até algumas das experiências mais dolorosas podem se tornar matéria-prima para o amadurecimento da alma.
No fim, a grande Sorte talvez não seja ter uma vida sem cicatrizes, mas encontrar razões para não permitir que elas determinem nossa capacidade de amar.
Não é nunca ter pecado, mas conservar a humildade de reconhecer os próprios desvios.
Não é jamais cair, mas não perder a disposição de levantar.
E, sobretudo, não é receber tudo o que desejamos, mas desenvolver uma consciência capaz de reconhecer o que realmente importa.
Porque há Abraços que nos alcançam por meio de pessoas, oportunidades, reencontros e acontecimentos inesperados.
E há outros - silenciosos e invisíveis - que parecem vir de um lugar onde a Misericórdia não faz perguntas antes de acolher.
Talvez a Sorte seja o nome que damos ao inesperado quando ele nos favorece.
Talvez a providência seja o nome que a fé atribui àquilo que não consegue explicar inteiramente.
E talvez a graça seja algo ainda mais extraordinário: a possibilidade de recomeçar, mesmo quando já não encontramos motivos suficientes em nós mesmos para merecer uma nova oportunidade.
Bom mesmo é quando a vida nos Abraça de tal maneira que a culpa perde a voz, o orgulho perde a força, o passado perde o domínio e a alma recupera a capacidade de florescer.
Porque, no Abraço da graça, não são os pecados que simplesmente desaparecem: é a consciência que desperta, o coração que se transforma e o ser humano que finalmente compreende que não nasceu para ser eternamente definido por seus erros, mas também pela coragem de superá-los.
E se um dia a Sorte vier ao nosso encontro, que nos encontre de coração aberto, mãos limpas de ressentimentos e espírito disposto à gratidão.
Afinal, a maior bênção não é quando Deus muda todas as circunstâncias ao nosso redor, mas quando, mesmo sem mudar todas elas, nos transforma por dentro.
Que a Sorte nos visite, que a Sabedoria nos acompanhe e que a Graça, sobretudo, jamais nos falte.
Amém!?!
