O Chá Frio. Ela sempre volta. Bate à... Com Carinho, Para Ninguém
O Chá Frio.
Ela sempre volta.
Bate à porta todas as noites, quando já estou deitada e rolando TikTok, com os olhos cansados e o corpo pronto para dormir. E ela bate à porta.
Na primeira vez, eu até me assustei. Hoje, reconheço suas batidas. Sei que é ela antes mesmo de me levantar. Sei que veio para ficar e, ainda assim, todas as noites, faço o caminho até a porta e a deixo entrar.
Ela tem um casaco preto. Caminha pela casa e se senta no sofá. Sua silhueta me traz um leve desconforto, mas também uma sensação boa, eu acho.
Ela pergunta como foi meu dia. Respondo que foi tudo bem, que não aconteceu nada de extraordinário, que estou apenas cansada. Ela sorri como quem sabe que estou mentindo e pergunta se pode fazer um chá.
Apesar de não gostar de chá, eu deixo.
Enquanto a água ferve, ela passeia pela minha casa como se conhecesse cada canto. E conhece. Sabe onde guardo as lembranças que evito visitar, os arrependimentos que finjo ter superado e as perguntas para as quais nunca encontrei respostas.
Ela se senta diante de mim, segura a xícara entre as mãos e começa a falar.
Lembra daquela vez em que você poderia ter feito diferente?
E daquela oportunidade que deixou passar?
As vozes dela vão mudando, até que uma voz de criança pergunta:
Você está satisfeita com a pessoa que está se tornando?
Depois, outra voz:
Tem certeza de que está fazendo o suficiente?
Eu não respondo. Apenas observo o chá esfriar enquanto ela continua falando sobre coisas que passei o dia inteiro tentando esquecer.
Às vezes, ela me conta histórias antigas. Outras vezes, inventa futuros que talvez nunca aconteçam. Faz-me pensar nas pessoas que magoei, nas palavras que não disse, nas escolhas que fiz e em todas as versões de mim que ficaram pelo caminho.
O pior é que ela nunca parece ter pressa.
Enquanto os ponteiros do relógio correm, ela encontra novos assuntos, abre gavetas, muda de voz e espalha pela casa sentimentos que nem sei explicar. E eu fico ali, ouvindo, como se precisasse encontrar uma resposta para cada pergunta antes que ela fosse embora.
Quando percebo, já são três da manhã.
O chá esfriou, meu celular está largado ao meu lado e a casa está silenciosa, mas, dentro de mim, parece que todos os cômodos estão ocupados.
Pergunto quando ela vai embora.
Ela olha para o relógio, toma o último gole de chá e diz que está quase na hora.
E está mesmo.
O céu começa a clarear. Ela se levanta, caminha até a porta e diz que voltará no dia seguinte.
Naquela noite, antes que ela saísse, observei-a e resolvi dizer alguma coisa depois de tanto tempo.
— Por que você sempre volta?
Ela parou diante da porta. Por um instante, achei que fosse embora sem responder, como fazia com tantas outras perguntas.
Então, virou-se para mim e afastou o capuz.
Lá estavam elas. Todas.
A menina que eu fui, com os olhos cheios de perguntas. A adolescente que sou, cansada de tentar acertar. E tantas outras versões de mim que ainda não conheço, mas que, de alguma forma, já parecem me esperar.
Ela apenas sorriu, colocou o capuz novamente e disse:
— E você? Por que todas as vezes abre a porta?
E saiu.
Fiquei olhando para a porta fechada, tentando entender por que, entre tantas perguntas que ela me fez durante aquelas noites, aquela era a única para a qual eu nunca havia pensado em encontrar uma resposta.
Talvez eu precise aprender a não abrir a porta. Ou, quem sabe, abri-la apenas para dizer que hoje não, que não gosto de chá e que não quero conversar. Preciso dormir. Talvez amanhã seja um novo dia.
Voltei para a cama. O relógio continuava andando e o céu, aos poucos, começava a clarear.
Continuei meu dia normalmente. Quando a noite chegou, deitei, mas naquela noite não consegui dormir.
Fiquei ali, sem saber se aquela pergunta era uma despedida ou apenas mais uma coisa que me faria passar a madrugada inteira tentando responder.
15.10.2026 - 23:03
