O Pressuposto do Abismo A vida não... André Vicente Carvalho de...

O Pressuposto do Abismo


A vida não pediu licença para existir.
Brota teimosa entre pedras de catedrais, como relva que desconhece a geometria, a vida talvez seja, como o silêncio que grita num quarto vazio ao amanhecer.
Somos sombras que caminham sob um olhar que não vemos,
sopros que escapam entre os dedos sem que percebamos, instantes de luz que não sabem que vão apagar.


O mais importante não é desvendar o mistério dos séculos, nem decifrar o alfabeto das estrelas ou o sentido das guerras.
O mais importante é, e aqui reside o espinho e a rosa que é saber, com a certeza que corrói e liberta, que um dia a morte virá.
Não como ladrão, mas como dono da casa, batendo à porta para cobrar a chave que nos foi emprestada.


Pois é essa finitude, esse ponto final que nos espreita na esquina, que transforma o caos em milagre.
Sem a morte, a vida seria eternidade insuportável,
mar sem margens, tédio sem fim.
É porque sabemos que vamos morrer que o agora se torna sagrado.
É porque a página vai fechar que cada palavra urge ser escrita.


Então, o único pressuposto


— "infelizmente, e felizmente"
—"é a sua existência".
Infelizmente, porque dói. Dói sabermos que o abraço vai desfazer-se, que a voz se calará, que o amor será memória.
Felizmente, porque é essa dor que nos faz humanos,
que nos arranca a máscara da indiferença e nos obriga a olhar o outro nos olhos.
A existência é o milagre trágico, um presente que só tem valor porque sabemos que será tomado de volta.


Há quem veja aqui a epopeia do herói que luta contra o destino.
Há quem veja a mulher que, ao segurar uma maçã,
sente o peso do universo inteiro na casca vermelha.
Eu vejo apenas o espanto, saber que a vida é, e que um dia não será.
E que, entre o sim e o não,
o único pressuposto é que fomos e que, por um breve e eterno instante,
existimos.