A Aparência Mostra, mas Não Revela O... Peregrino Nino Carneiro
A Aparência Mostra, mas Não Revela
O dia começava a despertar. Eram cinco e meia da manhã, e o sol, ainda tímido, tentava aparecer por entre as nuvens. Uma leve neblina cobria parte da cidade de São Carlos, enquanto os primeiros raios de luz anunciavam mais um belo amanhecer.
O motorista peregrino acabara de concluir uma corrida quando o aplicativo anunciou uma nova solicitação. O local de embarque era o bairro do Embaré, situado na zona oeste da cidade. Aceitou imediatamente, imaginando que teria a oportunidade de contemplar uma das paisagens de que mais gostava: o sol rompendo a neblina dourada. Para ele, aquele espetáculo da natureza é uma cena cinematográfica.
Ao chegar ao local combinado, encontrou o senhor Oldemar, que já o aguardava. Depois dos cumprimentos matinais, perguntou:
— Bom dia! O destino é a rodoviária, certo?
— Exatamente! — confirmou o passageiro.
Antes de iniciar a viagem, o peregrino fez uma proposta:
— O senhor me permite alterar um pouquinho a rota do GPS? Não vamos aumentar a distância, mas passaremos por um lugar com uma visão panorâmica maravilhosa do nascer do sol. Tenho certeza de que vai gostar.
O passageiro concordou. E assim seguiram viagem, enquanto o sol parecia brincar de esconde-esconde entre as nuvens, iluminando o horizonte com tons dourados e alaranjados.
De repente, o senhor Oldemar, observando o motorista, perguntou:
— Desculpe-me a curiosidade, mas qual é, ou foi, a profissão do senhor?
— Já exerci várias profissões ao longo da vida. Todas foram importantes, mas uma das atividades de que mais gosto é a de motorista de aplicativo.
— Mas por quê? — perguntou Oldemar.
— Porque me proporciona a liberdade que sempre desejei ter. Além disso, oferece algo muito valioso: a oportunidade de conhecer a vida real dos cidadãos são-carlenses. Cada passageiro traz consigo uma história, uma preocupação, uma alegria ou um sonho. E, quando estamos dispostos a ouvir, aprendemos muito sobre a vida.
O passageiro continuou observando o motorista e comentou:
— Mas, pela maneira como o senhor está vestido, com essa bonita camisa branca de linho, a barba branquinha e bem cuidada, e principalmente pela forma como conversa, confesso que fiquei intrigado. Afinal, o que o senhor realmente é?
O peregrino sorriu e respondeu:
— Sou apenas uma pessoa que gosta de caminhar, escrever, conversar e fazer amigos. Alguém que ainda tem muito a aprender e que procura encontrar, nas pequenas coisas, motivos para agradecer pela vida.
Fez uma breve pausa e acrescentou:
— Está vendo esse adesivo nas costas do meu banco? Ele tem um QR Code. Se o senhor o fotografar, poderá conhecer um pouco mais da minha história e dos caminhos que percorri. Mas, já que demonstrou tanta curiosidade sobre minha aparência, permita-me compartilhar uma reflexão.
O passageiro demonstrou interesse, e o motorista continuou:
— A apresentação pessoal é importante, sem dúvida. A maneira como nos vestimos e nos comunicamos pode demonstrar respeito por nós mesmos e pelos outros. Entretanto, precisamos tomar cuidado para não transformar a aparência em uma sentença sobre o caráter de alguém.
— Vou lhe dar dois exemplos. Imagine que sua filha chegue à sua casa para apresentar o namorado. O rapaz aparece cheio de tatuagens, piercings e com um visual extravagante. Ao entrar, cumprimenta o senhor dizendo: "E aí, velho, tudo legal?". Diga-me, sinceramente: o senhor ficaria preocupado?
Oldemar pensou por alguns segundos e respondeu:
— Confesso que ficaria, sim!
— Pois é! Agora imagine que esse mesmo rapaz seja o melhor aluno da faculdade de Biologia, honesto, estudioso e que ame e respeite profundamente sua filha. Ele apenas gosta daquela aparência mais rebelde. Isso faria dele uma pessoa menos digna?
— Evidentemente que não! — respondeu o passageiro.
— Agora vamos inverter a situação. Sua filha apresenta outro namorado. Dessa vez, um rapaz elegantemente vestido, cabelos bem penteados, sapatos impecáveis e um linguajar extremamente respeitoso. Entretanto, por trás daquela aparência, esconde-se alguém irresponsável, conhecido na faculdade por enganar as pessoas, aproveitar-se dos colegas e apresentar um desempenho escolar abaixo da média.
Oldemar começou a rir e comentou:
— Agora o senhor bagunçou a minha cabeça!
O peregrino também sorriu.
— Pois é, meu amigo! Muitas vezes, nossos olhos chegam a uma conclusão antes que nossa consciência tenha tempo de conhecer a verdade. Julgamos pela roupa, pelo cabelo, pela profissão ou até pelo lugar onde alguém mora. Esquecemos que a aparência pode apresentar uma pessoa, mas não revela, necessariamente, seus valores e seu caráter.
O passageiro permaneceu em silêncio, refletindo sobre aquelas palavras. O motorista aproveitou para acrescentar:
— Sabe, senhor Oldemar, depois de tantos quilômetros caminhando, aprendi que as pessoas se parecem muito com os caminhos. Alguns são bonitos, largos e aparentemente fáceis, mas escondem pedras e perigos. Outros parecem difíceis e pouco convidativos, mas acabam nos conduzindo a paisagens maravilhosas. Com as pessoas acontece algo semelhante: nem sempre aquilo que encanta os olhos tranquiliza o coração, e nem sempre aquilo que causa estranheza merece nossa desconfiança.
A conversa estava tão agradável que os dois quase não perceberam a aproximação da rodoviária. Quando o carro parou, o senhor Oldemar surpreendeu o motorista com uma revelação:
— Sabe de uma coisa? Estou indo para uma entrevista de emprego. Confesso que saí de casa preocupado com minha apresentação e com a impressão que vou causar. Mas essa conversa me fez muito bem. Agora estou mais tranquilo, mais leve e confiante de que farei uma ótima entrevista.
O peregrino sorriu e respondeu:
— Então, meu amigo, apresente-se bem, mas, acima de tudo, mostre quem o senhor realmente é. Uma boa aparência pode abrir uma porta, mas são nossas atitudes, nossos conhecimentos e nosso caráter que nos ajudam a permanecer do outro lado dela.
Oldemar agradeceu com entusiasmo:
— Muito obrigado pela corrida, pela paisagem maravilhosa e, principalmente, pela conversa. Foi um prazer conhecê-lo. Até a próxima, se Deus quiser!
— Até a próxima! Que Deus o acompanhe e que sua entrevista seja um sucesso!
O passageiro desembarcou e seguiu em direção à rodoviária. O motorista permaneceu por alguns instantes observando aquele senhor se afastar, levando consigo uma pequena bagagem e, quem sabe, uma esperança renovada.
Ao retomar o trabalho, o peregrino voltou a olhar para o horizonte. O sol, que antes se escondia entre as nuvens, agora brilhava intensamente. Aquela paisagem parecia combinar perfeitamente com a conversa que acabara de acontecer.
E uma reflexão lhe veio ao pensamento: quantas vezes deixamos de conhecer pessoas extraordinárias simplesmente porque não gostamos da maneira como se apresentam? Quantas amizades e oportunidades perdemos porque permitimos que nossos olhos julgassem antes de conhecermos o coração?
Naquela manhã, uma simples corrida até a rodoviária havia se transformado em mais uma página do seu *Diário de um Motorista*. E o peregrino encontrou mais uma razão para acreditar que as melhores lições da vida nem sempre estão nos livros. Muitas delas aparecem inesperadamente, sentadas no banco de trás de um automóvel.
A aparência é aquilo que os olhos encontram primeiro, mas o caráter é aquilo que o tempo nos permite descobrir.
Peregrino Nino Carneiro
