O ǫᴜᴇ ᴀ ᴄᴀ̂ᴍᴇʀᴀ... Emerson de Aragão

O ǫᴜᴇ ᴀ ᴄᴀ̂ᴍᴇʀᴀ ɴᴀ̃ᴏ ᴠɪᴜ


Conheci alguém que parecia uma conversa que eu já vinha tendo comigo mesmo há anos, só que agora em voz alta e do outro lado da mesa.
Tínhamos tudo em comum: o mesmo humor nas horas erradas, as mesmas perguntas sem resposta, o mesmo silêncio confortável. Era como se alguém tivesse lido meu manual e decidido existir. Paixão, daquelas que não pedem licença. Quintana já dizia: "Amar é mudar a alma de casa." E foi exatamente assim, sem mudança nenhuma de endereço, só a alma se sentindo em casa.
E não tenho uma foto sequer. Não tirei o celular do bolso nem por um segundo. Escolhi não perder tempo enquadrando o momento, porque enquadrar é se afastar dele. Preferi estar inteiro ali. Clarice Lispector, que escrevia sobre viver o instante em estado puro, entenderia: o que importa não é a imagem, é a sensação. A imagem ficou guardada onde nenhuma câmera alcança: no riso dela, na luz daquela noite, no jeito como o tempo parou de contar.
Rubem Alves defendia que o que é bonito a gente guarda no coração, não na gaveta. E Pessoa, à sua maneira, lembrava que somos aquilo que sentimos. Talvez seja isso que torna tudo mais raro. Uma foto se revê, mas um momento vivido de verdade a gente carrega. Não tenho o registro, tenho a lembrança, e ela é inteira.
No fim, Saint-Exupéry resumiu melhor do que eu: "O essencial é invisível aos olhos."