Bebelle, os tempos são outros. As... Northon Salomão de Oliveira
Bebelle, os tempos são outros. As máquinas ficaram mais frias, mais precisas, quase sem alma. Mas talvez exista uma espécie de honestidade nessa frieza: elas não são hipócritas. Não fingem afeto, não sorriem enquanto escondem intenções. Apenas funcionam.
As demandas continuam chegando em série, como ondas produzidas por uma engrenagem que nunca dorme. Mas já não preciso correr atrás de todas elas imediatamente. Deixo-as onde estão e vou encontrando cada uma no meu próprio tempo. Aprendi que nem toda urgência merece a minha pressa.
O sistema mudou, e eu também mudei dentro dele. Depois de tantos anos, sinto-me literalmente em casa. Não porque o lugar tenha se tornado menos impessoal, mas porque aprendi a habitar o tempo sem permitir que ele me habite por inteiro.
E talvez seja essa a pequena justiça dos anos: o ponteiro compensou cada tic, cada tac. Enquanto o mundo corria atrás do relógio, o relógio, silenciosamente, foi trabalhando a meu favor.
