O Destino Era a Universidade, mas a... Peregrino Nino Carneiro

O Destino Era a Universidade, mas a Lição Veio pelo Caminho
Parecia ser apenas mais uma corrida na rotina do motorista de aplicativo, Peregrino Nino Carneiro. Mas, para quem tem o hábito de conversar com os passageiros, cada viagem pode esconder uma história interessante, daquelas que merecem ser registradas em sua coluna literária.
Ao chegar ao local combinado, o motorista recebeu um rapaz que aparentava ter entre vinte e vinte e cinco anos. Depois dos cumprimentos, perguntou:
— O destino é a Universidade Federal?
— Sim, por favor! — respondeu o jovem.
Enquanto iniciava o percurso, o motorista perguntou:
— E qual curso você está fazendo?
— Medicina.
— Uau! — exclamou o Peregrino, demonstrando admiração. Em seguida, aproveitou a oportunidade para conhecer um pouco mais sobre o passageiro.
— De onde você é?
— De Mogi das Cruzes, no interior de São Paulo.
O motorista sorriu e comentou que conhecia um pouco da história daquela cidade. Explicou que o nome Mogi tem origem indígena e está associado à expressão *M'Boiji*, tradicionalmente interpretada como “rio das cobras”. Contou também que a ocupação da região começou no século XVI, com a atuação de desbravadores como Brás Cubas e Gaspar Vaz.
Mas havia outro capítulo importante naquela história: a imigração japonesa. Ao longo do século XX, famílias japonesas contribuíram significativamente para o desenvolvimento agrícola de Mogi das Cruzes, fortalecendo o cultivo de hortaliças, frutas, flores e cogumelos. Com trabalho e perseverança, ajudaram a transformar a região em uma das grandes referências agrícolas do cinturão verde paulista.
O estudante ouvia atentamente. Ao final da explicação, comentou, admirado:
— O senhor me deu uma aula brilhante sobre a minha própria cidade! Enquanto o ouvia, consegui imaginar como deve ter sido a chegada dos meus bisavós a Mogi, em 1935.
Animado, continuou:
— Até hoje, meus pais trabalham na agricultura. Todos os dias, um caminhão sai do sítio da nossa família carregado de verduras e legumes para abastecer a CEAGESP, em São Paulo. Cresci vendo o esforço deles, enfrentando o sol, a chuva e as incertezas de quem depende da terra para viver.
O Peregrino, interessado, fez outra pergunta:
— E por que você não quis seguir a profissão dos seus pais?
O rapaz respondeu:
— Por orientação deles. Meus pais sabem o quanto a agricultura pode ser sofrida e não querem que os filhos enfrentem as mesmas dificuldades. Apesar disso, reconhecem que é um trabalho nobre, essencial para a sociedade e cheio de vida. Por isso, escolhi a Medicina. Minha família também guarda com orgulho uma ligação de parentesco com o médico Sentaro Tacaoca, a quem associa à história da imigração japonesa em Mogi das Cruzes.
O motorista percebeu que aquela escolha representava muito mais do que a busca por uma profissão. Havia o amor dos pais, o desejo de oferecer um futuro melhor aos filhos e a vontade de cuidar de outras pessoas.
— Sabe de uma coisa? — comentou o motorista. — Você pode não ter seguido a profissão dos seus pais, mas certamente levará para a Medicina os valores que aprendeu com eles: disciplina, perseverança, responsabilidade e respeito pela vida.
O jovem sorriu. Talvez nunca tivesse pensado que a experiência vivida no sítio pudesse contribuir tanto para sua futura carreira médica. Naquele instante, percebeu que mudar de caminho não significava abandonar as próprias raízes.
A corrida se aproximava do fim, e o motorista aproveitou para fazer um convite:
— Um dia, ainda conversaremos sobre os lugares de Mogi das Cruzes que homenageiam a imigração japonesa, como o Parque Centenário da Imigração Japonesa, o Casarão do Chá e o Monumento ao Imigrante japonês. São espaços que preservam a memória de pessoas que atravessaram oceanos e ajudaram a construir a história da cidade.
— Será um prazer! — respondeu o estudante. — Depois desta conversa, fiquei com vontade de conhecer ainda melhor a história da minha terra e da minha família.
Ao chegar à universidade, os dois se despediram cordialmente. O estudante seguiu para seus compromissos, levando consigo uma nova perspectiva sobre suas origens. O Peregrino retomou seu trabalho, satisfeito por ter encontrado mais uma história digna de ser contada.
Assim terminou mais uma corrida prazerosa do motorista Peregrino Nino Carneiro. Uma viagem que começou com uma simples pergunta sobre o destino e terminou com reflexões sobre família, trabalho, vocação e conhecimento.
Mais uma vez, o motorista percebeu que a sabedoria não está apenas nos livros ou nas universidades. Ela também vive nas mãos calejadas dos agricultores, nas histórias dos imigrantes, nos ensinamentos dos pais e nas conversas inesperadas que a vida nos proporciona.
Conhecimento é caminhar com os olhos abertos: a cada passo, aprendemos não apenas sobre o caminho, mas também sobre as pessoas e as histórias que dão sentido à vida.
Peregrino Nino Carneiro