Aquilo que as palavras não alcançam... N. Adrião
Aquilo que as palavras não alcançam
Tenho tentado escrever-te, mas as palavras já não me obedecem. Quanto mais procuro traduzir o que sinto, mais distante me parece a verdade que desejo alcançar. Os versos nascem, morrem no papel, e nenhum deles parece digno de ti.
É como se meu pensamento conhecesse um idioma que minha pena jamais aprendeu.
Às vezes, temo que, de tanto procurar uma maneira de expressar esse sentimento, eu acabe por torná-lo banal. Que aquilo que em mim é imenso se reduza a meia dúzia de palavras já ditas por tantos outros. E recomeço. Apago. Reescrevo. Até que o cansaço me convença a silenciar.
Mas tu permaneces.
Não nos versos que abandono, nem nas frases que julgo insuficientes, mas naquele instante em que me distraio de tudo e, sem querer, volto a pensar em ti.
Talvez minha maior tristeza não seja sentir tanto, mas não encontrar, em toda a vastidão das palavras humanas, uma que te faça compreender o que tua existência, tão alheia a este tormento, despertou em mim.
