A vertigem do encontro Das nuvens,... Elder Magalhães

A vertigem do encontro

Das nuvens, chuva.
Do amargo, fruta.
Do sincero — o mistério que não se explica.

O suspiro que escorrega,
o suor que não se pede.
O entrelaçar fundo
dos olhos castanho-claros
— quase pretos quando a luz baixa.

Me abalo pelo fato
de existir alguém
que, além de existir,
quer.
E querer dói mais do que não existir.

Poder.
Não poder.
A mão que quase toca
e recua.

Do duro, pedra.
Do mole, água.
Do que se reconhece, o não dito.
Do que falta, o ainda não.

Sair do meio do medo,
entrar no fundo do seu olhar,
até onde a pupila escurece.
A vontade que aperta o peito:
o encontro concreto,
o vínculo ainda incerto.

Há caixas que ainda não se abrem,
receios guardados por dentro.

Temos.

Se algum dito soou torto,
que não seque o que ainda pode germinar.

Penso sem falar:
“Por quê?”

Do nada,
ter diante de si a possibilidade
e o medo de não vivê-la
— o mesmo medo de quem vê a chuva
e não sai.

Estado chuvoso
do dia que amanhece
neste meio de primavera.

A água escorre
pela janela do carro
enquanto parto.

Não sei se deixo para trás
um encontro
ou a possibilidade de outro.

A chuva continua
como se perguntasse
a mesma coisa.