**Outra, ainda eu** É tanto o que... Camilla Dionizio

**Outra, ainda eu**

É tanto o que mudei,
e tanto o que ainda mudo,
que olho para quem fui
e reconheço apenas partes.

Há algo meu naquela mulher,
mas já não visto seus gestos,
já não demoro os olhos
nos mesmos lugares.

A essência permanece,
mas os trejeitos, não.
Mudou o olhar,
e, com ele,
a forma de enxergar o mundo.

Às vezes, mergulho em mim
para saber onde estou.
Procuro minha voz
entre tantas que já tive,
até ouvir alguma coisa
que ainda soa como casa.

Às vezes, volto a quem fui.
Sento ao lado dela,
escuto o que tem a dizer.
Há lembranças que só ela
sabe me contar.

Mas, quando volto à superfície,
retomo quem sou agora,
com um gesto que ela não conhece,
com uma vontade
que antes não era minha.

Sou outra,
e ainda sou eu.

Talvez me reconhecer
seja isso:
encontrar minha essência
sem exigir de mim
o rosto de antes.