O tempo e a memória Sobre a superfície... César Cardoso

O tempo e a memória Sobre a superfície da terra, o tempo consome em silêncio tudo aquilo que tentamos erguer. Os carros envelhecem e perdem a utilidade, as velhas casas caem para dar lugar ao concreto novo, e patrimônios construídos com o suor de gerações são vendidos e esquecidos em um piscar de olhos. Nada do que é matéria resiste ao sopro dos anos. Até mesmo a memória daqueles que um dia foram grandes, cujos nomes ecoaram pela história, acaba silenciada, coberta pela poeira do esquecimento. Quando olhamos para a essência da vida, percebemos que a única certeza concreta é a brevidade do instante que nos é dado viver. O valor real não habita naquilo que acumulamos sobre este chão, mas na profundidade do que sentimos: no abraço demorado, no olhar sincero, no afeto cultivado sem pressa e na devoção com que cuidamos da nossa família. Todo o resto — o desejo de ser lembrado, a busca pelo prestígio, o peso dos títulos e a ilusão do “ter” — é apenas uma névoa passageira diante do mistério da nossa própria finitude.