Tem amores que não chegam para ficar.... Juliana Anndrade

Tem amores que não chegam para ficar.
Chegam para bagunçar a casa, abrir algumas janelas, mexer em gavetas que a gente nem lembrava que existiam, e, de quebra, acordar partes da gente que estavam há muito tempo em modo silencioso.


Você foi assim.


Não foi o fim da minha história.
Foi, talvez, aquele capítulo inesperado que ninguém pediu, mas que, quando termina, faz a gente perceber que precisava ser lido.


Com você, eu voltei a sentir.
Voltei a acreditar que ainda havia coisas vivas em mim que eu tinha dado como perdidas.


E talvez tenha sido justamente por isso que doeu tanto.


Porque eu descobri, da maneira mais bonita e mais inconveniente possível, que sentir intensamente não significa necessariamente permanecer.


Nem todo vínculo profundo é destino.
Alguns são passagem.
Alguns são ponte.
Alguns são travessia.


E alguns, aparentemente, vêm com um curso intensivo de autoconhecimento que ninguém solicitou.


Você abriu uma porta em mim.
Mas atravessá-la era responsabilidade minha.


E hoje eu consigo olhar para tudo isso com mais maturidade.


Não escrevo para pedir que você volte.
Também não estou cobrando parcelas atrasadas de um futuro que nunca aconteceu.
Muito menos tentando transformar o que vivemos em algo que não foi.


Escrevo para agradecer.


Obrigada por me lembrar que meu coração ainda sabe amar.
Que ainda sabe desejar.
Que ainda sabe se entregar.
E, principalmente, que ainda sabe sentir mesmo depois de tudo.


Mas agora eu sigo.


Porque amadurecer também é entender que nem tudo aquilo que a gente quer precisa ser insistido até virar exaustão.


Às vezes, o amor continua existindo, mas a insistência precisa ir embora.


E existem despedidas que não acontecem porque o amor acabou.
Acontecem porque a consciência finalmente chegou no mesmo lugar onde o coração já estava há algum tempo.


Hoje, pela primeira vez, eu consigo me despedir de você sem transformar a despedida em tragédia.


Sem drama.
Sem porta batendo.
Sem textão às três da manhã bom, pelo menos não mais.


Eu me despeço com amor.


Com gratidão pelo que você despertou.
Com carinho pelo que vivemos.
E com respeito pelo que não conseguimos ser.


E talvez um dia você compreenda que a minha intensidade não era necessariamente um defeito.


Eu apenas sentia muito.


Às vezes, rápido demais.
Às vezes, fundo demais.
Às vezes, antes mesmo de a razão conseguir protocolar o processo.


Mas estou aprendendo.


Aprendendo que intensidade pode ser uma qualidade quando vem acompanhada de consciência.
Que impulsividade pode ensinar, desde que a gente tenha humildade para aprender com ela.


Você foi uma parte importante da minha história.


Não necessariamente porque ficou.


Mas porque, depois de você, eu descobri que ainda havia muito de mim para viver.


E isso, sinceramente, já foi um presente e tanto.


Então, obrigada.


Você não foi o meu destino.


Foi o encontro que me lembrou que eu ainda estava viva.


E agora, com o coração mais tranquilo e a consciência finalmente em dia, eu sigo.


Sem apagar você.


Sem esperar você.


E, principalmente, sem me perder de mim novamente.