Que a nossa Criança Interior não pode... Alessandro Teodoro

Que a nossa Criança Interior não pode morrer — é um fato; que ela não pode matar a Criança dos outros — é outro.
Há uma certa beleza em conservar dentro de nós a capacidade de brincar, sonhar, acreditar, rir de coisas simples e se encantar com o que a vida, aos poucos, vai tornando comum.
Crescer não deveria significar abandonar completamente a criança que fomos.
Talvez amadurecer seja justamente aprender a carregá-la pela mão.
Mas existe uma diferença entre preservar a nossa criança interior e permitir que ela governe todas as nossas escolhas.
Porque a criança que existe em nós também pode ser ferida, carente, impulsiva, possessiva…
Pode querer tudo para si, não saber ouvir um “não”, confundir desejo com direito e liberdade com ausência de limites.
E, quando deixamos que essas feridas conduzam nossas atitudes, corremos o risco de transformar nossas dores em feridas para os outros.
É aí que a reflexão do Dia das Crianças ganha um sentido ainda maior.
Não basta dizer que amamos crianças.
É preciso perguntar que mundo estamos construindo para elas.
Que palavras estamos ensinando?
Que exemplos estamos oferecendo?
Que tipo de adulto estamos sendo diante de seus olhos?
Uma criança aprende muito mais com aquilo que presencia do que com aquilo que lhe ordenamos ou ensinamos.
Ela aprende quando vê um adulto pedir desculpas.
Aprende quando percebe que uma diferença não precisa virar desprezo.
Aprende quando testemunha respeito, generosidade, honestidade e limites.
Mas também aprende quando vê humilhação, intolerância, mentira, violência e pessoas usando sua própria dor como justificativa para ferir alguém.
Por isso, talvez preservar a criança interior seja também assumir a responsabilidade pelo adulto que nos tornamos.
Que nunca percamos a capacidade de brincar, mas que aprendamos a não brincar com os sentimentos alheios.
Que continuemos sonhando, sem destruir os sonhos de ninguém.
Que tenhamos coragem de defender nossa criança interior, sem transformar nossas frustrações em condenação das crianças que estão chegando.
Porque cada criança que nasce traz consigo uma possibilidade: a de que o mundo seja um pouco diferente amanhã.
E talvez nossa maior obrigação não seja apenas impedir que a criança dentro de nós morra, mas impedir que ela se torne tão ferida, tão egoísta ou tão amarga que passe a matar, nos outros, aquilo que um dia também tivemos: a esperança.
Feliz Dia das Crianças — às que ainda brincam, às que já cresceram e, principalmente, aos adultos que não se esqueceram de que toda criança merece encontrar um mundo um pouco mais gentil do que aquele que encontramos.
