Eu acredito que estava doente, ou... Jeff Marconis
Eu acredito que estava doente, ou talvez ainda esteja assimilando a forma como conduzo a minha vida durante esses seis meses em que estou me tratando. Acabei vivendo coisas que não me convém dizer com tanta firmeza, como estar doente mentalmente. Às vezes, reconhecer isso é o seu maior autodiagnóstico, e talvez seja uma coisa muito boa para poder refletir. Por exemplo, eu vejo passarinhos voando para além daquilo que eles parecem limitados a fazer, e eu sou igual a eles: para desviar das rotas dos ventos, acabei escrevendo livros, colocando imaginações onde talvez não devessem ser colocadas e me aprofundando em coisas que um passarinho jamais poderia mudar em seu trajeto. Ou seja, talvez eu não seja um passarinho. Ou talvez uma loucura maior seja apenas a sua própria lucidez gritando mais alto. Mas por que a gente grita mais alto se pode simplesmente dar um passo adiante e pensar? Eu imagino que o mundo seria muito colorido, como um arco-íris. Parei para pensar e ressaltar aqui: nem o arco-íris é tão bonito quanto a minha mente. Eu acho o arco-íris colorido demais, enquanto eu ainda vivo em preto e branco. Não consigo me desligar daquilo que sou, do mundo em que estou, para enxergar apenas o mundo que as pessoas veem. Um passarinho, às vezes, você vê como um animal silvestre; às vezes, vê um pombo; às vezes, qualquer outra espécie. Mas eu sou um tipo raro. Sou um tipo raro que ainda não sei descrever. Já parei para pensar que um passarinho pode ser desleal com a própria vida e que, se formos como um passarinho que descobriu a razão de voar e mudar sua rota para além dos limites geográficos e daquilo que lhe foi concedido durante a vida, talvez sejamos iguais a um passarinho preso em uma gaiola, presos dentro da nossa própria cabeça, em um lugar onde ninguém mais consegue entrar e, ao mesmo tempo, onde só nós conseguimos sair e entrar. Meu diagnóstico é o CID 411, mas, mesmo assim, será que vou estar bem? Só me resta saber se um dia estarei. Se um dia eu, como o passarinho que afirmo ser agora, voarei para bem longe, bem, bem longe mesmo, para que um dia eu não precise mais estar preso nessa gaiola. Talvez, por eu ter o sobrenome Silva, eu fosse como esses passarinhos silvestres que tentam prender, mas que continuam sendo tão silvestres, tão grandes em sua forma, tão bonitos e devastadores em sua inteligência e capacidade. Mas não estou falando mais de passarinhos. Passarinhos são apenas uma metáfora que estou usando para tentar desiludir as pessoas que pensam que estão doentes ou imaginam estar, embora eu esteja, de fato, passando por isso. Quero que elas acreditem que um passarinho, mesmo preso dentro da própria consciência, consegue fazer-se voar para bem longe. É uma coisa muito boa imaginar que você está livre. Você é um passarinho e quer viver livre, não em uma gaiola, não em um cativeiro, não em coisas que não lhe agradam. Por exemplo, você pode ser uma historinha contada pelos outros ou por si próprio, mentindo para si mesmo. Mas, convenhamos: somos passarinhos e precisamos sentir que essa metamorfose, ou essa história de estarmos doentes, não nos define por completo. Estamos doentes? Talvez estejamos. Estamos totalmente doentes? Talvez. Mas isso não limita quem somos, nem resume a nossa existência a um diagnóstico ou a qualquer outra coisa. Eu posso ter o CID 411, mas, ao mesmo tempo, existe uma pessoa dentro de mim e uma vida que eu carrego. E essa pessoa não é um passarinho, não é o CID 411, não é coisa nenhuma disso. É a pureza de viver apaixonadamente pela vida e por aquilo que ela nos dá em troca, enquanto tentamos vivê-la de uma forma tão boa, tão dócil e tão maravilhosa que só conseguimos descrevê-la em uma única coisa: amar a si mesmo acima de tudo, afirmar-se acima de tudo e permitir-se voar além de um passarinho comum, além de qualquer limite que pareça ter sido colocado diante de nós. Mas, acima de tudo, permanecer firme onde você estiver e onde quiser estar daqui para frente. Não viemos em vão para a Terra. Talvez todos tenhamos um propósito, e resta a nós procurá-lo. Então eu digo a mim mesmo: estou procurando o meu propósito. E, ao mesmo tempo, desejo que as pessoas que um dia lerem meus livros e todas as minhas obras encontrem o próprio propósito. Não sei qual é a sua idade ou em que momento da vida você esteja, mas escute bem: o maior propósito que existe não é apenas viver a vida. É fazer da própria vida uma verdadeira luxúria de existência. E a maior luxúria é vivê-la intensamente: cultivar plantas, cuidar de roseiras, construir um jardim, observar coisas lindas crescendo diante dos seus olhos. Não digo isso porque meu pai é jardineiro ou trabalha com ambientação ou algo do tipo. Digo porque já convivo com pessoas que possuem uma ligação profunda com a vida selvagem e com essas vidas silenciosas das plantas, como meu pai e minha avó, que faleceu em 2012. E quero dizer uma coisa: cultivem a vida de vocês ao máximo que lhes for permitido. Não quero que vocês olhem para este texto, para tudo o que escrevi e para tudo aquilo que carrego na minha própria descrição e entendam apenas aquilo que é permitido por Deus e pelo mundo. Talvez a maior confusão seja justamente aquilo que almejamos. Como expliquei em tudo isso, seja você mesmo com aquilo que tem hoje. Desde cultivar uma planta até apreciar um passarinho, ou até mesmo tornar-se, simbolicamente, um passarinho que deseja voar. Mas saiba: talvez não existam limites; existem apenas pessoas que querem viver além daquilo que os próprios olhos conseguem enxergar. E, ao mesmo tempo, elas podem viver isso se permitirem a si mesmas. Então é isso: permita-se viver aquilo que você tem até aqui. Tudo o que você tiver até aqui na sua vida, cultive como uma planta. Cultive até aquilo que você estiver oferecendo. Pode ser um brownie de chocolate, um bolo vendido no semáforo, um cafezinho no semáforo... não sei o que você vai fazer, mas cultive. Seja um passarinho, seja alguém selvagem, seja quem você é. Se você tiver o sobrenome Silva, carregue-o; se não tiver, faça o seu próprio caminho. Mas, acima de tudo, saiba que você é livre para decidir o rumo da sua vida. Só não faça desse rumo uma razão para derrubar a vida de outras pessoas. E, acima de tudo, persista. Vá estudar. Faça um concurso público, caso queira e esteja pensando nisso. Construa alguma coisa. Recomece quantas vezes forem necessárias. Mas seja, acima de tudo, o verdadeiro cultivador da sua própria história. Até breve, com amor e carinho. Jefferson Marconis Lima Silva (Jeff Marconis — Marconismo)
