⁠Não há espaço para a Arrogância... Alessandro Teodoro

⁠Não há espaço para a Arrogância nas fileiras silenciosas e gélidas de parede e meia dos cemitérios. Onde todos se nivelam por baixo, em barraquinhos tão pequen... Frase de Alessandro Teodoro.

⁠Não há espaço para a Arrogância nas fileiras silenciosas e gélidas de parede e meia dos cemitérios.


Onde todos se nivelam por baixo, em barraquinhos tão pequenos e cheios de nada.


Ali, onde o mármore já não distingue o rico do pobre, o poderoso do anônimo, o aplaudido do esquecido, toda vaidade parece uma espécie de piada contada diante da Eternidade.


Os títulos ficam do lado de fora.


As posses não atravessam sequer os portões.


O orgulho não encontra lugar para se acomodar entre quatro paredes tão estreitas.


Diante dos túmulos, a vida parece revelar sua verdadeira proporção.


Aquele que passou anos só acumulando bens termina com quase nada.


Aquele que se julgava indispensável torna-se só ausência.


A voz que tantas vezes ordenou, silencia.


As mãos que apontavam caminhos já não apontam para lugar nenhum.


E o nome, antes pronunciado com respeito ou temor, pouco a pouco se transforma em uma inscrição sobre a pedra, sujeita ao tempo, à chuva e até ao esquecimento.


É muito estranho pensar que passamos a vida inteira disputando espaços: espaço nas empresas, nas famílias, nas rodas de influência, nas vitrines sociais e até nos pensamentos dos outros.


Queremos ser vistos, reconhecidos, lembrados.


Construímos muros para separar o que é nosso do que pertence aos outros e, muitas vezes, gastamos a existência inteira tentando provar que somos maiores do que alguém.


Mas basta visitar um cemitério para perceber a inutilidade de tantas disputas.


Ali, nas terras silenciosas e gélidas, ninguém ocupa uma suíte.


Ninguém leva o veículo para dentro.


Não há cofre, diploma, medalha ou conta bancária.


Não há seguidores, aplausos ou plateias.


Há apenas profundo silêncio.


E, diante dele, a humanidade inteira parece caber na mesma medida.


Talvez os túmulos sejam uma das mais duras e espinhosas aulas de humildade intelectual que a vida oferece.


Eles nos lembram que somos passageiros, apesar da maneira como, tantas vezes, vivemos como se fôssemos proprietários do tempo.


Lembram-nos que o corpo que hoje se veste de vaidade amanhã dependerá apenas da memória daqueles que ficaram.


E que, no fim, a pergunta mais importante talvez não seja o quanto acumulamos, o quanto juntamos, mas o quanto espalhamos.


Porque há mortos que não morrem jamais, e há outros que morrem sem jamais terem vivido.


Os que não morrem jamais, vivem nas histórias que alguém conta, no conselho que alguém repete, na saudade que aperta o peito, no gesto de bondade que aprendemos com eles.


Há pessoas que partiram há décadas, quiçá séculos, mas ainda ocupam lugares enormes no coração de quem teve a graça de conhecê-las.


E talvez essa seja a única grandeza que mereça ser perseguida: não a de possuir um túmulo maior, mas a de deixar uma lembrança muito maior do que ele.


No cemitério, todos parecem pequenos.


Na memória e no amor de quem fica, alguns conseguem permanecer imensos.


Por isso, antes de olhar para alguém de cima, talvez devêssemos visitar um túmulo.


Antes de alimentar a arrogância, lembrar que a eternidade não se impressiona com nossos títulos e posses.


E, antes de desperdiçar a vida tentando parecer superior, compreender que, quando tudo termina, não importa a altura do pedestal que construímos.


Importa aquilo que fomos quando ainda havia tempo para ser.


Porque, no fim das contas, a morte não nivela apenas os corpos.


Ela desmascara as vaidades.