*A Lente Invertida* Andamos em vagões... tayna silva cutrim
*A Lente Invertida*
Andamos em vagões de espelhos opacos, vestindo certezas que nunca foram nossas,
apontando o dedo para os trapos
e escondendo a vergonha nas nossas fossas.
Cruéis são os olhos que se julgam puros, que veem a estranheza na veste alheia, enquanto constroem, em si, altos muros
e se afogam lentamente na própria areia.
Pois o julgamento que sai de tua boca,
que desdenha a cor, o adereço, o passo, é a mesma mordaça, cega e louca,
que te prende ao teu próprio fracasso.
Ah, se pudesses ver a foto revelada
na luz silenciosa do teu próprio quarto…
Verias tua alma tão fantasiada, tão cheia de remendos e de fardo.
O monstro que te assusta na esquina
é o mesmo reflexo que habita o teu peito.
Criticamos a vida que não nos domina,
porque no padrão jamais fomos aceitos.
E assim seguimos, juízes de nada,
pelas ruas frias do nosso desencanto:
chorando a dor da alma mascarada,
sem ver que no outro existe o mesmo pranto.
28.09.2026
Por Tayna Cutrim
