Acho que, dessa vez, vou orar e torcer... Keila De Oliveira
Acho que, dessa vez,
vou orar e torcer
para que meu poema chegue até você,
como aconteceu antes,
quando eu não esperava
que a vida ainda tivesse um jeito
de colocar você diante de mim.
Te rever depois de tantos anos
foi estranho.
Mas também foi familiar.
A sua risada,
as nossas piadas,
o mesmo humor,
aquela maneira quase silenciosa
de parecer que um entendia o outro
antes mesmo que precisássemos falar.
Era como se alguma coisa
tivesse ficado guardada em algum lugar,
não esperando por nós,
mas esperando para ser vivida outra vez.
Eu segui em frente.
E, por um tempo,
achei que tinha conseguido.
Minha vida continuou,
conheci outras pessoas,
amei novamente,
vivi histórias que não tinham você,
e você deixou de ocupar
os meus pensamentos.
Achei que o passado
finalmente tinha entendido
que não era mais presente.
Até você voltar.
E então eu descobri
que algumas histórias não desaparecem.
Elas apenas aprendem
a existir em silêncio.
Porque existe alguma coisa entre nós
que eu nunca encontrei em ninguém.
Não sei se é amor,
se é memória,
se é a intensidade de quem fomos,
ou se existem encontros
que deixam raízes profundas demais
para que o tempo consiga arrancá-las.
Só sei que sempre houve
uma espécie de pertencimento
que era muito nosso.
E talvez seja isso que mais me assuste.
Eu não precisei reaprender você.
Depois de tantos anos,
eu ainda sabia como era estar ao seu lado.
Mas não foi apenas nostalgia.
Porque eu não senti falta
somente de quem você foi.
Foi bom estar com quem você é agora.
Olhar para você
e perceber que mudamos,
crescemos,
seguimos por caminhos diferentes,
conhecemos outras pessoas,
nos tornamos outras versões de nós mesmos
e, ainda assim,
alguma coisa continuava intacta.
Não somos mais aqueles dois.
E talvez nunca devêssemos ser novamente.
Mas existe uma parte daquela história
que ainda pertence ao momento
em que estamos juntos.
Talvez algumas pessoas
não permaneçam na nossa vida
porque precisam ficar.
Talvez permaneçam
porque deixaram em nós
um lugar que ninguém mais soube ocupar.
E você é esse lugar para mim.
Eu não sei explicar
por que, depois de tantos anos,
a sua presença ainda consegue
me devolver uma sensação
que eu não encontrei em mais ninguém.
A sensação de não precisar me explicar.
De não precisar medir as palavras.
De não precisar tentar ser nada.
Apenas ser.
Como se alguma parte de mim
ainda soubesse exatamente
quem eu sou
quando estou com você.
E talvez seja isso
que eu nunca consegui esquecer.
Não exatamente você.
Mas quem eu era
quando pertencia a nós.
Talvez seja por isso
que, depois de tanto tempo,
bastou estar ao seu lado outra vez
para uma parte de mim
reconhecer o caminho de casa.
