Se nos preocupássemos uns com os... Alessandro Teodoro

Se nos preocupássemos uns com os outros, como fazemos com a matéria, talvez não houvesse tanta ferida aberta no mundo.
Gastamos tempo demais cuidando daquilo que podemos possuir e tão pouco cuidando daqueles que podemos perder.
Preocupamo-nos com casas, carros, contas, aparências, posições e conquistas, como se a vida pudesse ser medida pelo tamanho daquilo que acumulamos.
Enquanto isso, há pessoas ao nosso lado carregando dores que ninguém vê, silêncios que ninguém pergunta e feridas que, muitas vezes, foram abertas justamente pela nossa indiferença.
Talvez tenhamos aprendido a consertar quase tudo, menos aquilo que se quebra dentro de alguém.
Sabemos restaurar objetos, reformar paredes, substituir peças, recuperar patrimônios…
Mas ainda temos dificuldade para oferecer uma palavra quando alguém desaba, um abraço quando alguém se sente sozinho, ou simplesmente presença quando não há nada a dizer.
A matéria nos chama atenção porque faz barulho quando cai, quebra quando é atingida e deixa marcas quando se perde.
O coração humano, porém, muitas vezes sofre em silêncio.
E talvez seja por isso que tantas feridas permaneçam abertas: porque aprendemos a enxergar o que falta às coisas, mas nem sempre percebemos o que falta às pessoas.
Cuidar uns dos outros não exige grandes gestos.
Às vezes, começa com uma pergunta sincera: “Você está bem?”
E, principalmente, com a disposição de permanecer para ouvir a resposta.
No fim, tudo aquilo que acumulamos ficará para trás; só levamos o que espalhamos.
As coisas envelhecem, os objetos se desgastam, as paredes perdem a cor e aquilo que parecia tão urgente um dia deixa de importar.
Mas a maneira como tratamos alguém pode permanecer por muito tempo — tanto como cicatriz quanto como lembrança de um carinho que chegou na hora certa.
Talvez o mundo não precise de mais pessoas preocupadas em ter.
Talvez precise de mais pessoas dispostas a cuidar.
Porque há feridas que não pedem riqueza para serem curadas.
Pedem humanidade.
