- Sociedade De Estudos Espíritas... Marcelo Caetano Monteiro
- Sociedade De Estudos Espíritas realizou, em 1º de novembro de 1869.
A FESTA DOS MORTOS NÃO É NOS CEMITÉRIOS
A COMUNHÃO DE PENSAMENTOS ENTRE OS VIVOS E OS DESENCARNADOS.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
A comemoração dos mortos, quando compreendida à luz do Espiritismo, deixa de ser uma simples visita ao lugar onde repousam os despojos físicos e assume uma dimensão muito mais profunda. O cemitério guarda o corpo. A lembrança, porém, procura o Espírito.
Foi precisamente nesse sentido que a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas realizou, em 1º de novembro de 1869, sua sessão anual dedicada à memória dos mortos. Na ocasião, além das manifestações mediúnicas, prestou-se uma homenagem especial a Allan Kardec, reconhecendo o homem que dedicara sua existência à organização metódica e à divulgação da Doutrina Espírita.
O episódio merece atenção não apenas como registro histórico, mas sobretudo porque permite compreender uma questão essencial do pensamento espírita: qual deve ser a verdadeira relação entre os vivos e aqueles que já deixaram o corpo?
A MORTE NÃO É O FIM DO SER.
Para Kardec, a morte não significa o desaparecimento da individualidade. O corpo material retorna aos elementos que o constituíram, enquanto o Espírito prossegue sua existência.
Essa distinção é fundamental. O túmulo pertence ao corpo. A pessoa que amamos não está encerrada ali.
O Espiritismo desloca, portanto, o centro da lembrança. Em vez de transformar a morte numa contemplação exclusiva da matéria que se desfaz, conduz o pensamento para o ser espiritual que continua sua caminhada.
É nesse horizonte que a comunicação atribuída a Moki, publicada na Revista Espírita de dezembro de 1869, afirma que a verdadeira vida não está nos restos mortais, mas no Espírito que prossegue sua existência. O texto critica a visita puramente convencional ao cemitério quando ela se reduz ao hábito exterior e não é acompanhada de sincero recolhimento.
Não se trata de desprezar os túmulos.
Trata-se de não confundi-los com aqueles que amamos.
A RELIGIÃO DA LEMBRANÇA.
Uma das imagens mais fortes do texto é a oposição entre a multidão que visita os cemitérios e a verdadeira comunhão de pensamento.
Pode haver muitas pessoas diante de uma sepultura e, ainda assim, existir pouca lembrança verdadeira.
Pode haver flores, silêncio momentâneo e gestos tradicionais, mas faltar aquilo que, para o Espiritismo, possui maior significado: o pensamento sincero dirigido ao Espírito.
A lembrança espírita não necessita de espetáculo.
Ela pode nascer no silêncio de uma prece.
Pode surgir durante uma recordação.
Pode manifestar-se numa lágrima.
Pode aparecer quando alguém, diante da ausência, decide continuar praticando o bem em homenagem àquele que partiu.
É uma compreensão particularmente coerente com o discurso pronunciado por Allan Kardec em 1868. Naquela ocasião, ele explicou que a reunião dos espíritas para comemorar os mortos encontra sua razão na comunhão de pensamentos e sentimentos, capaz de fortalecer fraternidade, solidariedade, indulgência e benevolência.
A lembrança, portanto, não é simples exercício da memória.
É vínculo moral.
A COMUNHÃO DE PENSAMENTOS.
A expressão utilizada por Jean Reynaud na comunicação publicada em 1869 merece especial atenção.
"Comunhão de pensamentos."
Não se trata de uma fórmula ritual.
Não depende de objetos.
Não exige uma cerimônia exterior.
É uma convergência interior de sentimentos e propósitos.
Quando várias pessoas se reúnem sinceramente para recordar um Espírito, orar por ele e desejar-lhe paz e progresso, a reunião adquire significado espiritual precisamente pelo pensamento que a sustenta.
Essa concepção está em plena consonância com Kardec.
Em seu discurso de 1868, o Codificador esclareceu que o vínculo espírita é essencialmente moral e espiritual, fundamentado na caridade para com todos, compreendendo tanto os vivos quanto os mortos.
E aqui encontramos uma consequência extraordinariamente importante.
Para o Espiritismo, o morto continua pertencendo à humanidade.
A morte modificou sua condição de existência, mas não destruiu sua individualidade.
Por isso, a fraternidade não termina diante de uma sepultura.
ALLAN KARDEC E A OBRA QUE PERMANECE.
A homenagem prestada a Allan Kardec em 1869 possui também um significado que ultrapassa a mera reverência histórica.
A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas reconhecia naquele momento o trabalho daquele que organizara metodicamente os princípios recebidos dos Espíritos e os apresentara de maneira racional, filosófica e moral.
O próprio Kardec jamais reivindicou para si a autoria absoluta da Doutrina. Sua tarefa foi a de investigador, organizador, observador e codificador.
É justamente essa característica que torna sua obra tão importante para aqueles que desejam preservar o caráter racional do Espiritismo.
O Codificador não pediu uma fé cega em sua palavra.
Ao contrário, construiu um método de observação, comparação, análise e controle.
Em "O Que É o Espiritismo", apresentou o Espiritismo como uma doutrina que investiga os fenômenos espirituais e procura compreendê-los racionalmente, afastando-os tanto da credulidade quanto da negação sistemática.
Por isso, honrar Kardec não significa transformar seu nome em objeto de culto.
Significa estudar sua obra.
Compreender seu método.
Preservar a fidelidade aos princípios.
E, principalmente, aplicar na própria existência aquilo que a Doutrina ensina.
LEMBRAR OS MORTOS É TAMBÉM VIVER MELHOR.
(Ver 488 - L.E.)
Existe uma consequência moral ainda mais profunda.
Quando compreendemos que a existência corporal é transitória, a relação com os mortos modifica também nossa relação com os vivos.
A morte nos ensina a relativizar aquilo que julgávamos absoluto.
As disputas diminuem de importância.
O orgulho revela sua inutilidade.
As mágoas tornam-se pesadas demais para serem carregadas indefinidamente.
E a pergunta fundamental deixa de ser "quanto tempo ainda temos?" para assumir uma forma mais elevada:
"O que estamos fazendo com o tempo que recebemos?"
Essa é uma das grandes forças morais da compreensão espírita da morte.
Ela não convida à tristeza permanente.
Convida à responsabilidade.
Aquele que partiu não precisa apenas de lágrimas.
Precisa, quando necessário, de nossas preces, de nosso carinho e de nossos bons pensamentos.
E nós, que permanecemos temporariamente na experiência corporal, precisamos transformar a saudade em aperfeiçoamento.
O CEMITÉRIO E A VIDA REAL.
O texto de Moki apresenta uma crítica vigorosa à visita automática ao cemitério. A questão não está no local, mas na disposição íntima daquele que o visita.
O cemitério pode ser lugar de profunda reflexão.
Pode ser lugar de respeito.
Pode ser lugar de prece.
Mas não é a morada definitiva dos mortos.
O corpo repousa ali.
O Espírito prossegue.
Essa distinção, aparentemente simples, modifica toda a compreensão da morte.
O túmulo deixa de ser a imagem do fim e passa a ser a lembrança de uma passagem.
A lápide não encerra uma história.
Ela apenas registra a passagem de uma existência corporal.
A verdadeira continuidade encontra-se no Espírito.
"SEDE ESPÍRITAS TANTO POR VOSSOS ATOS, QUANTO POR VOSSAS PALAVRAS."
A frase atribuída a Jean Reynaud no final da comunicação resume admiravelmente o sentido moral de toda a mensagem.
Ser espírita não consiste apenas em afirmar a sobrevivência da alma.
Não basta falar sobre reencarnação.
Não basta conhecer Kardec.
Não basta frequentar reuniões.
A Doutrina somente alcança sua finalidade quando modifica o indivíduo.
Se acreditamos na vida espiritual, devemos viver de maneira coerente com essa crença.
Se acreditamos na fraternidade, precisamos praticá-la.
Se acreditamos na sobrevivência da alma, devemos abandonar o materialismo moral que transforma a existência terrestre em finalidade absoluta.
Se acreditamos na comunicação entre os dois planos da vida, devemos compreender que o vínculo mais legítimo com os desencarnados não é a curiosidade, mas a caridade.
E se verdadeiramente admiramos Allan Kardec, talvez a melhor homenagem que possamos prestar ao seu trabalho não seja repetir seu nome, mas estudar aquilo que ele estudou e praticar aquilo que sua obra moral nos ensina.
CONCLUSÃO.
A morte, contemplada pelo Espiritismo, perde o aspecto de ruptura absoluta.
O corpo termina sua função.
A individualidade continua.
A saudade permanece, mas pode transformar-se em esperança.
A lembrança permanece, mas pode converter-se em prece.
A ausência permanece aos sentidos, mas não significa necessariamente separação definitiva.
Eis por que a verdadeira "festa dos mortos" não precisa estar confinada aos cemitérios.
Ela pode existir onde houver uma consciência que recorda com amor, uma inteligência que compreende a continuidade da vida e um coração que transforma a saudade em bem.
Kardec ensinou que a comunhão de pensamentos é capaz de aproximar moralmente aqueles que compartilham os mesmos sentimentos.
Assim, diante de uma sepultura, o espírita não precisa perguntar apenas:
"Para onde foi aquele que amo?"
Pode também perguntar:
"Que posso fazer de melhor nesta existência, para que o meu amor por ele não permaneça somente na saudade?"
Talvez aí esteja uma das mais belas lições da Doutrina.
Os mortos não precisam de uma lembrança vazia.
Precisam de amor.
E o amor, quando verdadeiramente compreendido, não se limita a chorar quem partiu.
Ele procura tornar melhor quem ficou.
FONTES.
Allan Kardec. "Revista Espírita", dezembro de 1868. "Sessão anual comemorativa dos mortos. O Espiritismo é uma religião?"
Allan Kardec. "Revista Espírita", dezembro de 1869. "Sessão anual comemorativa dos mortos. Comemoração especial do Sr. Allan Kardec. A festa dos mortos não é nos cemitérios, por Moki. Comunhão de pensamentos, por Jean Reynaud."
Allan Kardec. "O Que É o Espiritismo", capítulo I. "Pequena conferência espírita."
Allan Kardec. "O Livro dos Espíritos", especialmente as questões relativas à alma, à vida futura, à separação da alma e do corpo e às relações entre encarnados e desencarnados.
Allan Kardec. "O Evangelho Segundo o Espiritismo", capítulos XXVII e XXVIII, sobre a ação da prece e as preces pelos mortos e pelos Espíritos sofredores.
Revista Espírita de dezembro de 1869. Texto integral.
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