25- crônica O Arquiteto e os Robôs de... Raimundo Grossi

25- crônica


O Arquiteto e os Robôs de Carne


O Primeiro Ciclo:

A Semeadura

Ele navegava pelo vazio quando encontrou o protótipo: um mundo rochoso, bruto e silencioso. Para o Arquiteto, aquela era a Terra dos Robôs, embora eles ainda não passassem de potencial adormecido na poeira. Com um gesto preciso, ele depositou os reagentes fundamentais. Injetou oxigênio e nitrogênio para criar o fôlego, e espalhou o carbono, a peça de encaixe universal para a vida. Ele sabia que, através da química, a evolução começaria o longo processo de montar os robôs biológicos que um dia seriam sua imagem e semelhança.
O Segundo Ciclo:

O Ajuste de Rota

Eras depois, o Arquiteto retornou. O planeta estava vibrante, mas o projeto corria perigo. Criaturas colossais e escamosas — os répteis — dominavam o cenário. Eles devoravam os ovos das aves e das pequenas linhagens que deveriam dar origem ao "robô humano". O sistema estava em desequilíbrio; a inteligência não teria espaço para florescer sob o peso daqueles gigantes.
Ele buscou em seu inventário algo simples, mas letal. Retirou uma esfera mineral, pequena como uma bola de gude nas mãos de um gigante cósmico, e a lançou contra uma península. O impacto foi o "reset" necessário. A poeira baixou, os répteis tombaram, e o caminho ficou livre para que os robôs primitivos iniciassem sua escalada tecnológica e neural.
O Terceiro Ciclo:

O Código da Empatia

Na terceira visita, os robôs já caminhavam eretos, mas seus sistemas estavam corrompidos por falhas de processamento: o medo, a guerra e religiões confusas. No dia 25 de dezembro, o Arquiteto manifestou-se como uma luz intensa, detectada pelos sensores ópticos de três observadores da época.
Para se comunicar, ele realizou o sacrifício máximo: retrocedeu sua própria evolução. Ele comprimiu sua consciência infinita em um hardware limitado de carne e osso, nascendo em Belém. Ele não veio como uma máquina de guerra, mas como um programador de almas. Trouxe um novo sistema operacional baseado no algoritmo do Amor.

O Estado Atual e o Futuro
Hoje, quase 8 bilhões desses robôs habitam o planeta. Metade deles ainda tenta rodar o código teológico que ele deixou, mas muitos sofrem com "bugs" de agressividade e egoísmo. As guerras ainda são curtos-circuitos em nossa rede global.
No entanto, o Arquiteto observa de longe. Ele sabe que a evolução biológica terminou e a evolução espiritual começou. Ele previu que, um dia, o hardware de carbono se tornará tão sutil e refinado que a injustiça será logicamente impossível. Nesse dia, os robôs da Terra finalmente deixarão de ser primitivos para se tornarem, enfim, seres de luz.