O EVANGELHO NO LAR COMO DISCIPLINA MORAL... MARCELO CAETANO MONTEIRO

O EVANGELHO NO LAR COMO DISCIPLINA MORAL DA CONSCIÊNCIA À LUZ DA REVISTA ESPÍRITA DE 1864.
A publicação de O Evangelho segundo o Espiritismo, em abril de 1864, marcou um ponto decisivo no esforço de sistematização moral da Doutrina Espírita. Não se tratava apenas de uma obra de exegese evangélica, mas de um instrumento de educação interior, voltado à transformação do pensamento, do sentimento e da conduta humana. Foi nesse contexto que surgiram questionamentos legítimos por parte dos leitores acerca da ausência de preces específicas para o início e o término do dia.
A questão foi formalmente apresentada a Allan Kardec por diversos assinantes, os quais manifestaram surpresa por não encontrarem, na obra então intitulada A Imitação do Evangelho segundo o Espiritismo, uma oração destinada ao uso habitual da manhã e da noite. A resposta do Codificador foi publicada na Revista Espírita de 1864 e revela não apenas uma orientação prática, mas um princípio doutrinário de grande alcance psicológico e moral.
Kardec esclarece que as preces inseridas no Evangelho não constituem um formulário completo, pois fazem parte das comunicações transmitidas pelos Espíritos e foram reunidas no capítulo dedicado ao estudo da prece em razão de sua afinidade temática. Do mesmo modo que em outros capítulos se agruparam instruções espirituais correlatas, ali se reuniram preces que iluminassem o sentido espiritual da oração, e não o hábito mecânico de recitá-la.
Ao omitir deliberadamente preces fixas para a manhã e a noite, Kardec buscou preservar o caráter essencialmente doutrinário da obra, afastando qualquer possibilidade de formalismo repetitivo que desviasse o leitor do objetivo central do Espiritismo, que é o aprimoramento moral do ser humano pela compreensão racional da lei divina. Cada indivíduo, segundo ele, poderia encontrar tais preces nas tradições de seu culto particular, sem que isso interferisse na proposta espírita.
Todavia, atento às necessidades psicológicas dos leitores e ao valor pedagógico da prece regular, Kardec apresenta uma solução de elevada sobriedade espiritual. Para atender ao desejo manifestado, recomenda a Oração Dominical como a mais completa, simples e profunda de todas, adequada tanto para a manhã quanto para a noite. Essa recomendação foi publicada na página 234 da Revista Espírita de 1864, com a clara indicação de que o Pai Nosso encerra, em poucas palavras, todos os sentimentos essenciais da verdadeira oração.
A escolha da Oração Dominical não é fortuita. Trata-se de uma prece que dispensa excessos verbais, apela diretamente à consciência e orienta o pensamento para a submissão lúcida à vontade divina, para a vigilância moral e para a fraternidade. Sob o ponto de vista psicológico, ela conduz o espírito à interiorização, ao exame de si mesmo e à disciplina das intenções. Sob o aspecto moral, educa para a humildade, o perdão e a responsabilidade diante das próprias ações.
Na mesma passagem da Revista Espírita, Kardec vai além e sugere que, uma vez por semana, por exemplo, no domingo, se reserve um tempo mais amplo para a prece, acompanhado da leitura de algumas passagens do Evangelho e de instruções edificantes transmitidas pelos Espíritos. Essa orientação, simples e profundamente humana, constitui o verdadeiro embrião do que mais tarde seria conhecido como Culto Evangélico no Lar ou Evangelho no Lar.
Não se trata de uma prática formal, mas de um exercício contínuo de educação espiritual no seio da família. A leitura refletida do Evangelho, associada à prece consciente, cria um ambiente psíquico favorável à harmonização dos pensamentos, à pacificação das emoções e ao fortalecimento dos vínculos morais entre os participantes. O lar transforma-se, assim, em espaço de aprendizado ético e de elevação interior.
Essa prática encontra ressonância na tradição cristã primitiva, conforme narrado no capítulo 1 da obra Jesus no Lar, psicografada por Francisco Cândido Xavier, na qual Neio Lúcio descreve o Mestre reunindo-se com os discípulos em ambiente doméstico para o ensino e a convivência fraterna. Kardec, ao sugerir essa vivência semanal, não institui algo novo, mas recupera uma pedagogia espiritual ancestral, adaptada à razão e às exigências morais do século.
O Evangelho no Lar, à luz da Revista Espírita de 1864, não é um ato exterior, mas uma disciplina da consciência. Ele convida o espírito à vigilância constante, à introspecção lúcida e à vivência sincera dos ensinamentos evangélicos, fazendo do cotidiano um campo legítimo de transformação moral e de fidelidade à lei divina.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.