O Vício Tenho um vício, como qualquer... Faria Lagoense

O Vício


Tenho um vício,
como qualquer um tem.
Mas este é especial,
por ser diferente dos demais.


É um vício
que exige imaginação,
que pede dor,
sofrimento,
pensamento.


Pensar num futuro
sem ela.


Um vício que me rouba vida
como qualquer droga,
e que eu odeio
por não conseguir controlar.


É um vai-e-vem espacial:
quando volta,
a minha dopamina cresce.
Passo de daltónico a normal,
de velho
à flor da idade.


Quando parte para o espaço,
o mundo fica
a preto e branco.


Uma escuridão
que me tapa o cérebro,
onde as ideias claras
dão lugar
ao sombrio
e ao melancólico.


O mundo fecha-se
num monte de betão cinzento.
Escondo-me lá
até o foguetão regressar.


É um ciclo
que deixa de ser vício
e passa a ser vida,
rotina.


Este vício só acaba
se eu lhe falar,
se lhe disser
o quão aconchegante é o seu foguetão,
o quanto gostava
de passar lá dentro
tempo.


Mas falar disso é complicado.
Astronauta não sou,
e sem o ser
não se pode
ficar no espaço.


Ainda assim,
este simples agricultor
vai desafiar leis,
vai tentar entrar no foguetão
e lá ficar.


Para acabar
com o ciclo,
com este vício incontrolável,
como a apoptose
das minhas células.


Tenho de a desafiar
para terminar o meu sofrimento:
a dúvida,
a necessidade de saber
se aquele majestoso foguetão
me deixaria passar
o resto da eternidade
nele.