Cômodo do silêncio A noite entorta... Felipe Mendonça

Cômodo do silêncio


A noite entorta tudo como a minha vida.
A casa respira em desordem, revirada por dentro,
como a mente que não encontra repouso.
Os móveis se inclinam, cansados, guardam o peso de pensamentos que ninguém sentou para escutar.


As xícaras, sujas de um chá frio, ainda guardam bocas que passaram e não se despediram.
Há restos de calor no fundo da louça, um abandono doméstico, como se o dia tivesse desistido de se organizar em mim.
Caminho entre os cacos com cuidado demais qualquer passo em falso pode acordar para dormir.


E a noite observa, imóvel, sabendo que a bagunça não é da casa, sou eu espalhado pelos cômodos.