Quando entrei para a escola de... Ana Carolina Paulo
Quando entrei para a escola de normalistas, tive a nítida sensação de atravessar um portal. Era como se, ao vestir aquele uniforme, eu deixasse para trás a menina de antes e desse os primeiros passos em um mundo totalmente novo. Blusa branca social, broche delicado preso à pontinha da gola, saia de pregas na altura exata do joelho, meias brancas altas e sapatinho preto. Um conjunto que me fazia parecer uma boneca cuidadosamente colocada na prateleira dos sonhos.
Acordei cedo, muito antes do despertador tocar. Arrumei-me com um zelo quase cerimonial, como quem sabe que está prestes a viver algo importante. Saí de casa brilhando feito um centavo novo, com o coração acelerado e a alma cheia de expectativas.
No ônibus, os olhares vieram antes mesmo de eu me sentar. Muitos, principalmente masculinos. Naquele dia eu não entendia completamente, mas hoje sei o quanto o imaginário dos homens é fértil quando se trata das normalistas. Eu seguia meu caminho, tentando parecer segura, embora por dentro a timidez ainda falasse mais alto.
Ao chegar à escola, fui engolida por uma multidão de meninas iguais a mim: mesmos uniformes, mesmos sorrisos contidos, a mesma mistura de medo e encantamento nos olhos. Éramos muitas, todas com a sensação de estar começando algo que mudaria nossas histórias.
A diretora surgiu imponente no patamar da escada principal. Sua voz ecoou firme ao anunciar as boas-vindas, enquanto apontava para um grande quadro onde estavam escritos nossos nomes e as turmas às quais seríamos designadas. Permaneci um pouco afastada, deixando que as outras passassem à minha frente. A timidez me fazia preferir observar de longe.
Quando o pátio já estava quase vazio, aproximei-me do quadro com cuidado. Meus olhos percorreram as listas até encontrarem: turma 1111, segundo andar. Respirei fundo e subi as escadas, cada degrau carregado de ansiedade.
Ao entrar na sala, fui surpreendida por dois rostos conhecidos: Letícia e Rita, amigas da minha antiga escola. A alegria foi imediata, quase uma festa silenciosa no meio de mais de seiscentas pessoas desconhecidas. Ter dois portos seguros naquele mar novo fez tudo parecer mais possível.
A aula inaugural aconteceu no auditório magnífico da instituição. Professores novos, colegas novos, histórias que ainda seriam escritas. Tudo era novidade para aquele centavinho recém-polido, ainda aprendendo a brilhar sem medo.
Na volta para casa, eu e minhas amigas antigas pegamos o mesmo ônibus. Uma descia em um ponto, outra mais adiante, até que restasse apenas eu. Mas todas descíamos com o mesmo sorriso largo, de orelha a orelha, carregando o dia inteiro no peito.
Minha mãe me esperava na varanda. O rosto dela refletia orgulho, satisfação e uma alegria quase silenciosa. Quis saber tudo: como tinha sido, o que eu sentira, o que eu vira. Tomei um banho, como se lavasse o cansaço e guardasse apenas a emoção, e passamos a tarde conversando. Falamos do dia que havia passado e dos muitos que ainda viriam.
Eu estava, oficialmente, entrando em uma nova fase. Uma fase que minha mãe sonhara viver, mas que, pelos percalços da vida, não pôde alcançar. Ainda assim, através de mim, ela também seguia aquele caminho. E ali, naquele fim de tarde tranquilo, fiz uma promessa silenciosa: eu daria o meu melhor. Por mim. E por ela.
