Eurípedes Barsanulfo: “Fui Até Lá... Marcelo Caetano Monteiro

Eurípedes Barsanulfo: “Fui Até Lá em Espírito”

Era costumeiro que, durante suas aulas no Liceu Sacramentano, Eurípedes Barsanulfo entrasse em súbito transe mediúnico. Nesses momentos, seu olhar se perdia no horizonte espiritual, e um silêncio respeitoso se estab
elecia entre os alunos, acostumados àquela serenidade que prenunciava algo extraordinário. Quando retornava, o professor retomava a voz com ternura e explicava, como quem narra uma lição viva do Evangelho, o que havia feito durante sua breve ausência do corpo.

Certa manhã, após um desses transes, Eurípedes abriu um leve sorriso e disse aos alunos, com naturalidade comovente:

— Prestem atenção. Acabo de estar em uma residência, atrás da igreja do Rosário, auxiliando num parto difícil. O marido ainda não sabe que já é pai e está vindo para cá, a cavalo, com roupa de montaria. Neste instante, ele está apeando diante do colégio. Vai subir os degraus da escada… Quando ele entrar, peço que se levantem e depois se sentem. Atenção, ele está chegando…

Mal terminara a frase, e a porta se abriu. Um homem com chapéu e roupas empoeiradas entrou aflito, dirigindo-se a Eurípedes:

— ‘Seu’ Eurípedes, por favor, vá depressa à minha casa! Minha mulher está em trabalho de parto e temo por ela!

O médium, tranquilo, respondeu com brandura:

— Acalme-se, meu amigo. O parto já terminou há cinco minutos.

— Impossível, ‘seu’ Eurípedes! Há cinco minutos o senhor não poderia estar lá, eu teria visto o senhor pelo caminho!

— O senhor não me viu porque fui em espírito — respondeu ele com doçura. — Mas eu o vi. Pode retornar tranquilo: sua esposa está bem, e a menina que nasceu é linda e forte.

Desconfiado, o homem insistiu para que Eurípedes o acompanhasse de volta. Quando chegaram, a esposa, deitada com a criança ao lado, sorriu e exclamou:

— O senhor não precisava vir de novo, ‘seu’ Eurípedes… Eu e o bebê estamos ótimas!

Eurípedes, sereno, apenas abençoou o lar e regressou ao colégio. Retomou a aula exatamente do ponto em que a interrompera, como se nada de extraordinário houvesse ocorrido revelando, mais uma vez, a simplicidade sublime de quem fazia da mediunidade um ato natural de amor e serviço ao próximo.

Fonte:
Eurípedes Barsanulfo, o Apóstolo da Caridade, de Jorge Rizzini.